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Ondas de Calor e Saúde

Preparação para eventos de calor extremo. Curso introdutório, prático e baseado exclusivamente nas fontes reunidas para este trabalho, para profissionais da Atenção Primária.

45 min de conteúdo 5 módulos curtos 15 questões 26 fontes citadas

Parte IApresentação do curso

Título e descrição

Ondas de Calor e Saúde: Preparação para Eventos de Calor Extremo. Minicurso introdutório de aproximadamente 43 minutos, em cinco aulas curtas, sobre o que é uma onda de calor, como o calor afeta o organismo, quem adoece mais, como reconhecer e manejar as doenças relacionadas ao calor e como preparar a equipe e o serviço antes do próximo evento.

Público-alvo

Médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde da Atenção Primária, incluindo agentes comunitários de saúde em serviço. O material é compreensível também por estudantes avançados da área da saúde. Não pressupõe formação prévia em clima ou epidemiologia ambiental.

Objetivo geral

Capacitar o profissional de saúde a reconhecer precocemente agravos relacionados ao calor, identificar as pessoas do seu território sob maior risco, conduzir o atendimento inicial e o encaminhamento adequados e participar da preparação do serviço antes e durante um alerta de calor — reconhecendo os limites do que a evidência disponível sustenta.

Resultados de aprendizagem do curso

Ao final, espera-se que o participante seja capaz de:

  1. Explicar o que caracteriza uma onda de calor e por que não existe um limiar único e universal para defini-la Guo et al., 2017; Graffy et al., 2024.
  2. Distinguir três situações que costumam ser confundidas: associação epidemiológica entre calor e mortalidade, agravamento de doença preexistente e doença diretamente relacionada ao calor.
  3. Descrever, em linguagem clínica, como a termorregulação sobrecarrega os sistemas cardiovascular, renal, respiratório e nervoso central.
  4. Identificar os grupos mais expostos e mais sensíveis, incluindo o papel — e as incertezas — dos medicamentos de uso corrente.
  5. Reconhecer cãibras, exaustão e intermação pelo calor, iniciar o resfriamento e decidir quando encaminhar à emergência.
  6. Listar ações concretas de preparação da unidade e de comunicação com a população durante um alerta de calor.
Como ler as citações deste material

Toda informação clínica, epidemiológica ou quantitativa vem seguida da fonte correspondente, entre parênteses e em fonte monoespaçada. Quando as fontes divergem, a divergência aparece em bloco destacado como este — e não é resolvida em silêncio. Quando um tópico do escopo solicitado não tem sustentação suficiente nas fontes disponíveis, isso é registrado na seção final, e não preenchido com conhecimento externo.

As fontes vêm de três acervos: o notebook Heatwaves and Climate change (19 fontes, base clínica do curso); o notebook Mudanças Climáticas e Saúde, do curso OPAS/OMS de clima e saúde para a América Latina (24 fontes, das quais 7 foram aproveitadas); e quatro artigos adicionais sobre serviços climáticos e doenças sensíveis ao clima. A procedência de cada uma consta das referências.

Parte IIPrograma completo

A sequência segue a lógica pedagógica proposta — do fenômeno ao organismo, do organismo à pessoa, da pessoa ao atendimento e do atendimento ao serviço. Dois ajustes foram feitos em relação ao esboço inicial. A umidade e a temperatura noturna entram já no Módulo 1, e não como detalhe fisiológico do Módulo 2, porque as fontes tratam ambas como parte da definição operacional do evento perigoso, não como consequência dele Murage et al., 2017; Tulane, 2026. E o Módulo 1 recebeu um bloco sobre calor e doenças infecciosas — não porque a evidência seja forte, mas justamente porque é fraca e a pergunta é inevitável numa unidade brasileira Alcayna et al., 2022.

Módulo 1 — Onda de calor: o que é e por que é um problema de saúde

9 min

Objetivos de aprendizagem

  • Definir onda de calor e explicar por que a definição é local, e não absoluta.
  • Diferenciar dia quente isolado de onda de calor, e reconhecer o papel da umidade e da noite quente.
  • Distinguir associação epidemiológica de causalidade direta na mortalidade por calor.
  • Reconhecer os limites da evidência sobre calor e surtos de doenças infecciosas.

Tópicos

  • Quatro definições operacionais comparadas; ausência de limiar internacional único.
  • Ilha de calor urbana; umidade e sensação térmica; temperatura noturna.
  • Carga de mortalidade na Europa, na América Latina e no Brasil; excesso difuso e código X30.
  • Efeito colheita; risco após o fim do evento; calor e doenças infecciosas.

Mensagem principalOnda de calor é um evento definido em relação ao que é esperado naquele lugar e época; seu dano aparece como piora de doenças comuns, quase nunca como um diagnóstico de "morte por calor".

Módulo 2 — Como o calor afeta o organismo

8 min

Objetivos de aprendizagem

  • Descrever os dois mecanismos de dissipação de calor e o que os limita.
  • Relacionar a resposta termorregulatória às descompensações cardiovascular, renal e respiratória.
  • Reconhecer os distúrbios hidroeletrolíticos que imitam ou agravam o quadro.

Tópicos

  • Termorregulação; desidratação; desidratação silenciosa.
  • Coração, rim, pulmão e sistema nervoso central sob estresse térmico.
  • Hiponatremia por ingestão excessiva de líquido hipotônico; saúde mental.

Mensagem principalO calor mata sobretudo sobrecarregando sistemas já vulneráveis — o quadro que chega à unidade costuma ser descompensação, não hipertermia.

Módulo 3 — Quem apresenta maior risco

9 min

Objetivos de aprendizagem

  • Aplicar o modelo exposição × sensibilidade × proteção a pessoas do próprio território.
  • Identificar idosos, crianças, gestantes, trabalhadores expostos e pessoas socialmente vulneráveis.
  • Avaliar criticamente a lista de medicamentos que aumentam a vulnerabilidade ao calor.

Tópicos

  • Fatores moduladores; isolamento social e pessoas que vivem sozinhas.
  • Saúde materno-infantil e neonatal; trabalhadores e doença renal.
  • Medicamentos: o que a evidência experimental sustenta e o que ela não sustenta.

Mensagem principalRisco não é uma lista de diagnósticos: é a combinação de quanto a pessoa se expõe, quão sensível ela é e quanta proteção ela consegue acessar.

Módulo 4 — Reconhecimento e manejo das doenças relacionadas ao calor

11 min

Objetivos de aprendizagem

  • Diferenciar cãibras, exaustão e intermação pelo calor à beira do leito.
  • Executar as medidas iniciais de resfriamento na ordem de eficácia descrita nas fontes.
  • Decidir, por critérios explícitos, quando encaminhar à emergência.

Tópicos

  • Espectro clínico e sinais de alarme; o problema terminológico brasileiro.
  • Resfriamento por evaporação; hidratação; diagnósticos diferenciais.
  • Critérios de encaminhamento e armadilhas frequentes.

Mensagem principalAlteração do estado mental em pessoa exposta ao calor é emergência médica — e o resfriamento começa antes e durante o transporte, não depois.

Módulo 5 — Prevenção e preparação dos profissionais e serviços

10 min

Objetivos de aprendizagem

  • Formular orientação preventiva concreta para paciente e família.
  • Listar as ações de preparação que cabem à equipe, à vigilância e à gestão.
  • Situar a adaptação ao calor nos níveis de prevenção já usados na APS.
  • Planejar a comunicação da unidade durante um alerta de calor.

Tópicos

  • Orientações domiciliares, de rua e de trabalho; revisão de prescrição.
  • Níveis de prevenção aplicados ao calor; os dez componentes da OMS.
  • Papéis do clínico, da vigilância e do gestor; vulnerabilidade do próprio serviço.
  • Serviços climáticos, alertas do INMET, registro do agravo e comunicação.

Mensagem principalA resposta ao calor extremo é organizacional e antecipada: o que não estiver combinado antes do alerta não acontecerá durante ele.

Parte IIIRoteiro detalhado dos módulos

Os roteiros abaixo são texto de aula: podem ser lidos em vídeo, gravados em áudio ou distribuídos como apostila. Termos técnicos são explicados na primeira aparição.

Módulo 1 · 7 minOnda de calor: o que é e por que é um problema de saúde

A. Introdução

Quase todo profissional de saúde já atravessou uma semana de calor intenso na sua unidade e percebeu que "chegou mais gente". O que raramente fica claro é o que exatamente chegou mais — e por que os óbitos daquele período não aparecem, em lugar nenhum, como mortes por calor. Esta aula responde às duas perguntas. Ela é a base do curso: sem entender como o evento é definido e como o dano se distribui, todo o resto vira intuição. E há um fio que atravessa as cinco aulas: o que o curso monta, do começo ao fim, é uma resposta decidida antes do alerta — quando ele chega, já é tarde para combinar o que fazer.

B. Conteúdo

O que é uma onda de calor

O Ministério da Saúde define ondas de calor como eventos climáticos caracterizados por temperaturas extremamente altas, que superam os níveis esperados para uma determinada região e época do ano, podendo durar dias ou semanas MS, Ondas de Calor. Duas ideias estão embutidas nessa frase e valem ser destacadas para o aluno.

A primeira é que a definição é relativa. Não existe um número universal de graus a partir do qual se declara uma onda de calor: 34 °C em fevereiro em Porto Alegre e 34 °C em fevereiro em Cuiabá não significam a mesma coisa para os corpos que vivem em cada lugar. A segunda é que há uma duração envolvida — não é um pico de uma tarde.

A pesquisa confirma que essa indefinição não é um descuido: é uma característica do campo. Um estudo multicêntrico com 400 comunidades em 18 países precisou construir doze definições diferentes de onda de calor, combinando quatro limiares de temperatura (percentis 90, 92,5, 95 e 97,5 da série local) com três durações (2, 3 e 4 dias ou mais) Guo et al., 2017. Uma revisão de escopo de 237 estudos em 43 países foi mais direta: encontrou 141 fontes distintas de dados climáticos e nenhum limiar padronizado de calor extremo Graffy et al., 2024. Quando um profissional pergunta "mas afinal, a partir de quantos graus?", a resposta honesta é que a pergunta não tem resposta única — e que, no Brasil, quem declara operacionalmente o evento é o INMET Vieira, manuscrito Sul fev/2024.

Vale mostrar ao aluno quatro definições operacionais reais, lado a lado, para que a variabilidade deixe de ser abstrata:

Quem defineCritérioFonte
Serviço Meteorológico Nacional (Argentina)Temperatura máxima e mínima igualam ou superam o percentil 90 simultaneamente, por pelo menos 3 dias consecutivos, sobre a série de outubro a março de 1961–2010. Em Buenos Aires, os limiares são 22 °C (mínima) e 32,3 °C (máxima).Chesini et al., 2019
Plan andino de salud y cambio climático (OPAS/ORAS-CONHU)Temperaturas que superam os extremos históricos por mais de quatro dias consecutivos.Plan andino, 2020
Lancet CountdownPeríodos de mais de 3 dias em que a temperatura mínima supera o percentil 99 da média de 1986–2008.Roca Villanueva et al., 2019
Estudo multicêntrico MCCDoze combinações de limiar (p90 a p97,5) e duração (≥2, 3 ou 4 dias).Guo et al., 2017

Repare que uma delas usa só a mínima, outra exige máxima e mínima ao mesmo tempo, e outra fala em extremos históricos sem percentil. São perguntas diferentes, e produzem janelas diferentes sobre os mesmos dias.

Há ainda uma camada que raramente se discute: o dado climático de entrada também é uma escolha. Não existe consenso sobre qual produto de dados climáticos é o mais apropriado para modelar impacto em saúde, e produtos globais em grade carregam vieses sistemáticos em relação ao clima local — por limitação de resolução, simplificações do modelo e imprecisões nos dados de cobertura do solo. Usar informação climática num modelo de saúde sem consciência desses vieses pode comprometer a confiabilidade da decisão de saúde pública tomada a partir dele Fletcher et al., 2021. Para o clínico, a implicação é modesta mas real: dois estudos podem discordar sobre o mesmo evento por terem usado fontes de dados diferentes, e isso não significa que um deles esteja errado.

Temperatura alta não é a mesma coisa que perigo

Dois fatores mudam o risco sem mudar o termômetro.

Umidade. O corpo depende da evaporação do suor para se resfriar; quando a umidade é alta, o suor não evapora e o mecanismo falha Guardian/Perkins-Kirkpatrick et al., 2026. Um estudo da Universidade Tulane observou aumento significativo de atendimentos de emergência por condições cardiovasculares quando a umidade ultrapassou 80%, mesmo com temperaturas do ar não extremas, e o aumento não foi gradual Tulane, 2026. O ponto prático: um dia de 32 °C com umidade muito alta pode ser mais perigoso que um dia de 36 °C seco. Vale registrar que, no Brasil, o Ministério da Saúde também alerta para a combinação oposta — calor associado a baixa umidade relativa, sobretudo na região central do país MS, Ondas de Calor.

A noite. Em Londres, temperaturas noturnas elevadas mantiveram associação com mortalidade mesmo após ajuste para a exposição diurna. O efeito mais forte foi para acidente vascular cerebral, com risco relativo de 1,65 (IC95% 1,27–2,14) comparando o percentil 99 ao percentil 80 de temperatura noturna; dias quentes seguidos de noites quentes tiveram risco maior do que dias quentes seguidos de noites frescas Murage et al., 2017. É por isso que os sistemas de alerta britânicos usam dois limiares para Londres — 32 °C de dia e 18 °C à noite Murage et al., 2017. A noite quente não dá trégua; e o mesmo estudo mostrou que a exposição noturna contribui de forma importante para a mortalidade também em pessoas com menos de 65 anos.

Por que isso é um problema de saúde pública

Na Europa, praticamente todo o continente — 99,6% das sub-regiões — apresenta aumento das mortes atribuíveis ao calor, estimadas em cerca de 62.000 mortes em 2024. Os alertas diários extremos passaram de cerca de 1 por ano em 1991–2000 para 3,3 por ano em 2015–2024, com aumentos de 316%, 450%, 198% e 238% no sul, oeste, leste e norte do continente Lancet Countdown Europa, 2026.

Na América Latina e no Caribe, a exposição a ondas de calor em maiores de 65 anos alcançou cerca de 270 milhões de pessoa-dias em 2020, e estima-se que entre 20% e 60% da mortalidade relacionada ao calor na América do Sul entre 1991 e 2018 seja atribuível à mudança climática antropogênica Code Red LAC, 2022.

Em Buenos Aires, entre 2005 e 2015, o risco de morrer por causas naturais aumentou 14% durante as ondas de calor (RR 1,140; IC95% 1,108–1,173) em relação aos demais dias do semestre quente; o aumento simples de 1 °C na média correspondeu a RR 1,007 (1,005–1,009). Em termos absolutos, as ondas de calor acrescentaram cerca de 11 mortes por dia a uma cidade que registra em média 89 Chesini et al., 2019.

No Brasil, um estudo da onda de calor de fevereiro de 2024 no Sul e em Roraima, usando a janela oficialmente declarada pelo INMET (7 a 12 de fevereiro, mais defasagem de 0 a 3 dias), estimou risco relativo de 1,077 (IC95% 1,039–1,117), o que corresponde a 217 óbitos em excesso em nove dias; incluindo Santa Catarina, 271 óbitos Vieira, manuscrito Sul fev/2024.

Duas perguntas que o aluno sempre faz

"Isso não é só antecipação de mortes que já iam acontecer?" Essa hipótese tem nome — efeito colheita, ou deslocamento de mortalidade — e foi testada. No estudo de Buenos Aires, não se verificou efeito colheita: não houve redução do risco nos dias posteriores aos eventos, o que indica que o aumento de mortes durante as ondas de calor não constitui adiantamento de óbitos iminentes Chesini et al., 2019.

"Quando o alerta acaba, acabou o risco?" Não necessariamente. Em Buenos Aires, mulheres, idosos (65+ e 85+) e as causas cardiovasculares e respiratórias alcançaram o risco relativo mais alto no dia seguinte ao término da onda de calor; nos maiores de 84 anos o risco permaneceu elevado até quatro dias depois Chesini et al., 2019. Vale registrar que esse padrão difere do observado no evento brasileiro de fevereiro de 2024, em que o efeito foi máximo na defasagem zero, com decaimento monotônico Vieira, manuscrito Sul fev/2024 — ver a seção de revisão.

Associação, agravamento e doença pelo calor: três coisas diferentes

Este é o ponto conceitual mais importante do curso, e o mais fácil de errar.

Naquele mesmo estudo brasileiro, o excesso de óbitos não se concentrou em nenhuma causa. Ele se espalhou por quase todos os capítulos da CID-10 — circulatório 21%, respiratório 17%, endócrino 17%, causas externas 17%, infecciosas 13%, renal 11% —, poupando as neoplasias, e nenhum grupo isolado sobreviveu à correção para múltiplas comparações Vieira, manuscrito Sul fev/2024. E o código X30 da CID-10, "exposição a calor natural excessivo", registrou zero óbitos em todos os estados e em todos os dias analisados. Um evento com 217 mortes em excesso produziu oficialmente zero mortes por calor.

Disso decorrem três leituras distintas, que o profissional precisa manter separadas:

  • Associação epidemiológica — durante o evento morreram mais pessoas do que o esperado. Isso é uma propriedade da população e do período, estimada estatisticamente; não diz o que aconteceu com nenhum paciente individual.
  • Agravamento de doença preexistente — a via mais provável para a maior parte desse excesso: pessoas com insuficiência cardíaca, doença renal, doença respiratória ou diabetes descompensam sob estresse térmico MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  • Doença diretamente relacionada ao calor — cãibras, exaustão e intermação, que são entidades clínicas próprias (Módulo 4) e representam a menor parte do total.

Dizer que "toda morte ocorrida durante a onda de calor foi causada pelo calor" é errado. Dizer que "nenhuma morte foi causada pelo calor porque o X30 está zerado" também é errado. Um dado adicional reforça a cautela: no estudo multicêntrico internacional, na maioria dos países não houve efeito adicional da onda de calor depois de controlar para a temperatura média diária — as exceções foram Brasil, Moldávia e Taiwan, e apenas com o limiar mais extremo (percentil 97,5) Guo et al., 2017. Em outras palavras: na maior parte do mundo, o dano vem do calor de cada dia somado, e não de um "extra" produzido pela sequência de dias.

A leitura pela via do agravamento tem apoio explícito em uma segunda fonte, latino-americana: as internações hospitalares durante ondas de calor "geralmente se devem ao agravamento de condições sanitárias preexistentes mais que ao calor propriamente dito" Chesini et al., 2019.

E as doenças infecciosas? Um limite honesto do conhecimento

Numa unidade brasileira, a pergunta surge sozinha: se veio calor, vem mais dengue? Vem mais diarreia? Convém responder com o tamanho real da evidência, que é pequeno.

Uma revisão de escopo sobre surtos de doenças infecciosas sensíveis ao clima após eventos climáticos extremos identificou 90 eventos na literatura — e apenas 5 envolviam ondas de calor, contra 34 de enchentes e 23 de ciclones tropicais. A evidência é maior e mais concordante para doenças de veiculação hídrica do que para doenças transmitidas por vetores Alcayna et al., 2022. Dentro do pouco que existe:

  • Diarreia: um estudo na China associou aumento de dias de onda de calor a mais atendimentos de emergência por diarreia infantil; de modo mais geral, há concordância alta de que temperaturas altas se associam a maior risco de doença diarreica Alcayna et al., 2022.
  • Cólera: um estudo em Bangladesh encontrou defasagem de 2 dias entre onda de calor e aumento de casos — e, notavelmente, que a cobertura arbórea no entorno dos domicílios atenuou esse efeito Alcayna et al., 2022.
  • Dengue: a relação é ambígua, e nos dois sentidos. Ondas de calor pareceram aumentar a magnitude de surtos na China e no Vietnã, mas um estudo em Singapura sugeriu que maior duração da onda pode reduzir o risco a longo prazo, porque temperaturas acima da faixa ótima de transmissão (aproximadamente 26–29 °C) diminuem a sobrevivência do mosquito adulto. Mudanças de comportamento durante o calor — passar mais tempo fora, usar menos roupa — também alteram a exposição ao vetor Alcayna et al., 2022.

A conclusão prática é de contenção: não se deve ensinar que onda de calor aumenta dengue. Coerentemente, no evento brasileiro de fevereiro de 2024 a dengue foi testada como potencial confundidor e não explicou o excesso observado (RR 0,806 na janela) Vieira, manuscrito Sul fev/2024.

C. Exemplo clínico

Caso 1 — o que os registros mostram

Uma equipe de Saúde da Família revisa os óbitos do seu território na semana do alerta de calor. Encontra uma senhora de 81 anos com insuficiência cardíaca, um homem de 64 anos com doença renal crônica em tratamento conservador, uma morte por pneumonia e um afogamento. Nenhuma declaração de óbito menciona calor. A leitura correta não é "nenhuma dessas mortes tem a ver com o calor", nem "todas foram causadas pelo calor" — é reconhecer que, num período de excesso de mortalidade difuso entre capítulos da CID-10 Vieira, manuscrito Sul fev/2024, o calor plausivelmente contribuiu para parte desses desfechos sem que isso possa ser atribuído caso a caso.

Na prática
  1. Ao ouvir "onda de calor" no noticiário, verifique a declaração do INMET para a sua região — é ela que define operacionalmente a janela no Brasil Vieira, manuscrito Sul fev/2024.
  2. Olhe a umidade, não só a temperatura; e olhe a mínima noturna, não só a máxima Tulane, 2026; Murage et al., 2017.
  3. Nas semanas de calor declarado, espere aumento de demanda distribuído por várias causas, não um surto de um diagnóstico só Vieira, manuscrito Sul fev/2024.
  4. Não desmobilize no dia em que o alerta termina: parte do risco se estende aos dias seguintes, sobretudo em idosos Chesini et al., 2019.
  5. Se atender um agravo em que a exposição ao calor foi determinante, registre-a — a ausência quase total do X30 é, em parte, um problema de registro Vieira, manuscrito Sul fev/2024.
Take-home — Módulo 1
  1. Onda de calor é definida em relação ao esperado para a região e a época, e não por um número fixo de graus MS, Ondas de Calor.
  2. Não há limiar internacional único: 12 definições num estudo, 141 fontes climáticas em outro Guo et al., 2017; Graffy et al., 2024.
  3. Umidade alta e noite quente aumentam o risco sem alterar a temperatura máxima Tulane, 2026; Murage et al., 2017.
  4. O excesso de mortalidade é real e mensurável, mas difuso entre causas — e praticamente invisível na causa básica de óbito Vieira, manuscrito Sul fev/2024.
  5. Não é apenas antecipação de mortes iminentes: o efeito colheita foi testado e não se verificou Chesini et al., 2019.
  6. A evidência que liga onda de calor a surtos infecciosos é escassa e, para dengue, ambígua nos dois sentidos Alcayna et al., 2022.
  7. Associação, agravamento e doença pelo calor são três coisas distintas e devem ser ditas com palavras distintas.

Módulo 2 · 8 minComo o calor afeta o organismo

A. Introdução

Se a maior parte do dano do calor aparece como descompensação de doenças comuns, o profissional precisa saber exatamente por onde essa descompensação passa. Esta aula percorre o caminho fisiológico — do termostato central até o rim — para que o raciocínio clínico do Módulo 4 não seja decoreba. É a segunda das três leituras do Módulo 1 — o agravamento — vista por dentro: o que chega à unidade é, quase sempre, uma doença comum descompensada, não hipertermia.

B. Conteúdo

Termorregulação: uma faixa estreita

O corpo humano mantém a temperatura central em torno de 37 °C, dentro de uma faixa segura muito estreita. Acima de 40,5 °C, o risco de falência de múltiplos órgãos aumenta rapidamente Mohammed & Nashwan, 2026. O centro termorregulador, no cérebro, envia sinais pelo sistema nervoso autônomo que desencadeiam vasodilatação cutânea — mais sangue na pele — e sudorese Mohammed & Nashwan, 2026. São esses os dois mecanismos disponíveis; e o segundo só funciona se o suor conseguir evaporar, o que a umidade alta impede Guardian/Perkins-Kirkpatrick et al., 2026.

Quando a exposição se prolonga e essa capacidade é superada, instala-se a hipertermia — a elevação da temperatura central. É o que se chama de estresse térmico, termo guarda-chuva para as doenças relacionadas ao calor, que vão de cãibras leves à intermação, potencialmente fatal Mohammed & Nashwan, 2026.

Coração e circulação

A própria termorregulação já exige trabalho cardiovascular mesmo quando a temperatura corporal permanece normal Guo et al., 2017. A sequência descrita no guia do Ministério da Saúde é encadeada MS/OPAS, Guia de bolso 2024:

  • Taquicardia — a frequência cardíaca sobe e os vasos se expandem para aumentar a circulação cutânea.
  • Hipotensão — transpiração e vasodilatação periférica prolongadas levam à hipovolemia; o extravasamento de líquido para o espaço extravascular produz edema de membros inferiores e reduz o fluxo sanguíneo renal.
  • Síncope — se a hipotensão não é controlada, a perfusão cerebral cai e há perda transitória da consciência.
  • Arritmia — tanto a hiperpotassemia da desidratação grave quanto a hipopotassemia por perda de potássio no suor ou por ingestão excessiva de líquido hipotônico podem gerar arritmias.
  • Insuficiência cardíaca — a sobrecarga pode descompensar idosos e cardiopatas crônicos; a hiponatremia, ainda que relativamente rara, aumenta consideravelmente o risco de morte nesses pacientes.

Como dado empírico, o guia registra que o risco de hospitalização por infarto do miocárdio aumenta cerca de 1,6% a cada 1 °C de elevação da temperatura, e que existe associação clara entre calor e mortalidade por doenças cardiovasculares MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Sun et al., 2018 e Liu et al., 2015.

Rim

Durante o estresse térmico, o sangue é redistribuído das vísceras — inclusive dos rins — para a pele, reduzindo o fluxo sanguíneo renal; a desidratação concomitante agrava a depleção de volume e a hipoperfusão Mohammed & Nashwan, 2026. Somam-se a hipertermia agindo diretamente sobre as células tubulares e a rabdomiólise por esforço, que libera mioglobina e obstrui os túbulos MS/OPAS, Guia de bolso 2024; Mohammed & Nashwan, 2026. O resultado pode ser lesão renal aguda: até um terço dos pacientes hospitalizados por estresse térmico a desenvolvem, sobretudo quando o diagnóstico e o tratamento são tardios Mohammed & Nashwan, 2026. A desidratação crônica também concentra sais insolúveis na urina e favorece nefrolitíase MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Um achado populacional acrescenta nuance importante e deve ser dito ao aluno. Em Buenos Aires, não houve aumento significativo de mortalidade por causas renais no conjunto das ondas de calor — inclusive testando defasagens de até 15 dias. Mas, na onda excepcionalmente longa de dezembro de 2013, com nove dias de duração, a mortalidade por causas renais subiu 65% (RR 1,647; IC95% 1,367–1,986). Os autores concluem daí a necessidade de seguimento específico da população com vulnerabilidade renal diante de eventos prolongados Chesini et al., 2019. A leitura razoável é que o rim aparece como desfecho de mortalidade sobretudo quando a exposição se prolonga — o que não contradiz a fisiopatologia, mas calibra a expectativa numa onda de três dias.

Pulmão

O calor intenso pode desencadear hiperventilação, especialmente em crianças e em idosos com DPOC. Temperaturas altas com baixa umidade levam à perda insensível de líquidos pelo trato respiratório e à desidratação silenciosa, acompanhada de tontura, astenia, adinamia e dispneia, com ressecamento das mucosas. Nos quadros graves, surgem taquipneia, alcalose respiratória e, em casos extremos, edema pulmonar ou síndrome do desconforto respiratório agudo MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Sistema nervoso central e saúde mental

A hipernatremia da desidratação causa sede, confusão, alteração do sensório e coma. A hiponatremia grave por ingestão excessiva de líquidos hipotônicos — intoxicação por água — causa irritabilidade, confusão, rebaixamento progressivo da consciência, convulsões e coma. Ambas podem ser confundidas com intermação MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Quanto à saúde mental, o guia registra aumento de cerca de 7% nas internações por problemas de saúde mental durante ondas de calor MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Khalaj et al., 2010. Um estudo de caso-cruzado com 719.375 internações em Nova Gales do Sul, na Austrália, encontrou risco relativo de 1,92 (IC95% 1,58–2,34) na estação quente e 3,03 (2,56–3,60) na estação fria, comparando o percentil 99 de temperatura; não houve efeito para episódio maníaco e transtorno bipolar He et al., 2026. O portal do Ministério da Saúde acrescenta que o calor extremo prolongado pode agravar ansiedade e depressão e aumentar o risco de violência e comportamento agressivo MS, Ondas de Calor.

Desempenho cognitivo

Em experimento controlado com 20 trabalhadores braçais de meia-idade sob quatro condições de temperatura (WBGT de 23 a 31 °C), o desempenho em tarefas executivo-mnésicas seguiu um padrão de U invertido — melhor sob calor moderado, pior nos extremos — enquanto a reatividade sensório-motora se manteve estável ou melhorou Thermal stress and cognitive performance, EEG. É um achado de laboratório, com amostra pequena, e deve ser apresentado como hipótese de trabalho e não como fato consolidado.

C. Exemplo clínico

Caso 2 — a queda que não era "só uma queda"

Mulher de 78 anos, hipertensa e com insuficiência cardíaca, em uso de diurético de alça. No quarto dia de calor intenso, refere fraqueza e tontura ao levantar-se e sofre uma queda em casa. Na unidade, está hipotensa e taquicárdica, com temperatura axilar normal. Não há intermação. Há a cadeia descrita acima: transpiração e vasodilatação prolongadas → hipovolemia → hipotensão → síncope MS/OPAS, Guia de bolso 2024, com o diurético como fator agravante, e não como causa isolada — a própria fonte adverte que a lista de medicamentos indica agravamento possível, sem relação causal estabelecida.

Na prática
  1. Em semana de calor, meça pressão em pé e deitado nos idosos em uso de diurético ou anti-hipertensivo — a hipotensão precede a síncope MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  2. Pergunte ativamente sobre volume urinário e cor da urina: a hipoperfusão renal é silenciosa até deixar de ser Mohammed & Nashwan, 2026.
  3. Oriente hidratação com água, e não com grandes volumes de líquidos hipotônicos de uma vez — a hiponatremia por sobre-hidratação imita a intermação MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  4. Considere a onda de calor como possível gatilho ao avaliar descompensação de DPOC, IC ou transtorno mental grave MS/OPAS, Guia de bolso 2024; He et al., 2026.
Take-home — Módulo 2
  1. Só existem dois mecanismos de dissipação — vasodilatação cutânea e evaporação do suor —, e a umidade desativa o segundo Mohammed & Nashwan, 2026; Guardian, 2026.
  2. A termorregulação sobrecarrega o coração antes mesmo de a temperatura corporal subir Guo et al., 2017.
  3. Até um terço dos internados por estresse térmico desenvolve lesão renal aguda Mohammed & Nashwan, 2026.
  4. Hipernatremia e hiponatremia produzem confusão mental e podem ser confundidas com intermação MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  5. Acima de 40,5 °C o risco de falência de múltiplos órgãos cresce rapidamente Mohammed & Nashwan, 2026.

Módulo 3 · 9 minQuem apresenta maior risco

A. Introdução

Toda cartilha traz uma lista de grupos vulneráveis, e toda lista é esquecida. Esta aula troca a lista por um raciocínio de três variáveis que a equipe pode aplicar ao seu próprio território — e depois enfrenta o tópico em que a evidência é mais desconfortável: os medicamentos.

B. Conteúdo

O modelo: exposição × sensibilidade × proteção

Diante do mesmo risco climático, o impacto não é o mesmo para todos, porque três fatores o modulam: quanto a pessoa se expõe, quão sensível ela é e quão protegida ela está — esta última dependendo de saber prevenir e ter acesso a orientação MS/OPAS, Guia de bolso 2024. É um modelo simples e suficiente para a prática.

Mais expostos

São, em geral, pessoas que vivem na pobreza; acamadas ou com mobilidade limitada; que vivem em ilhas de calor urbanas ou em cidades populosas; que não têm ar-condicionado em casa nem acesso a ambientes climatizados; trabalhadores em climas muito quentes, trabalhadores rurais e trabalhadores em atividades de grande esforço físico expostos ao sol MS/OPAS, Guia de bolso 2024. Quem acumula mais de um desses fatores está sob risco maior.

Dados empíricos que ancoram essa lista: o risco de morte durante uma onda de calor foi 34% maior em áreas mais densamente povoadas; idosos que vivem em ilha de calor urbana têm maior probabilidade de morrer ou de ir ao pronto-socorro; e há menor risco de morte quando as pessoas têm acesso a ar-condicionado MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Kosatsky et al., 2012; Laverdière et al., 2016; Nordio et al., 2015.

Mais sensíveis

Crianças e idosos; gestantes; pessoas com um círculo social muito pequeno; pessoas com pouco condicionamento físico ou sobrepeso; pessoas com doenças crônicas; pessoas com transtorno do desenvolvimento intelectual; pessoas com adoecimento mental, principalmente nas formas graves; usuárias de determinados medicamentos; e pessoas que usam álcool ou outras drogas MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Alguns detalhes merecem destaque para a APS:

  • Idosos. A capacidade de suar é reduzida com a idade Guardian/Jay, 2026, e há dificuldade fisiológica de regulação da temperatura somada a problemas de mobilidade MS/OPAS, Guia de bolso 2024. Ao reexaminar seis ondas de calor extremas entre 2003 e 2024 com um modelo de sobrevivência que incorpora idade, temperatura e umidade, pesquisadores encontraram, em todas as seis, períodos não sobreviváveis para pessoas com mais de 65 anos que permanecessem ao sol; em duas delas — Larkana (2015) e Phoenix (2023) — havia períodos não sobreviváveis para idosos mesmo à sombra Guardian/Perkins-Kirkpatrick et al., 2026. Em Buenos Aires, os maiores de 84 anos tiveram RR 1,201 (1,098–1,313), atingido não durante a onda, mas no dia seguinte ao seu término, com risco elevado até quatro dias depois Chesini et al., 2019.
  • Isolamento social. "Círculo social muito pequeno" é um fator de sensibilidade explícito no guia MS/OPAS, Guia de bolso 2024. Quem vive só pode não ter quem perceba a confusão mental inicial. Há evidência do lado positivo dessa moeda: pertencer a uma rede social parece ter efeito protetor contra a doença relacionada ao calor, e o baixo capital social ou o isolamento contribuem para a vulnerabilidade de grupos populacionais Cheng & Berry, 2013. Isso transforma a visita domiciliar e a ativação de vizinhança de gentileza em intervenção.
  • Crianças. Em Buenos Aires, o grupo de 0 a 14 anos apresentou o maior risco relativo entre as faixas etárias durante a onda de calor (RR 1,167; IC95% 1,019–1,335), com significância apenas no período do evento, sem efeito nos dias seguintes Chesini et al., 2019. É um dado que contraria a intuição comum de que o problema é só dos idosos.
  • Transtorno mental grave. Pessoas com problemas de saúde mental estão entre os grupos de maior risco de morrer por intermação durante uma onda de calor — por medicamentos, por capacidade limitada de autocuidado e por isolamento social MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Health Canada, 2011.
  • Álcool e outras drogas. Pessoas com problemas de abuso de substâncias têm maior risco de morrer durante uma onda de calor MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Page et al., 2012.

Gestantes, recém-nascidos e crianças

Uma revisão de escopo de 61 estudos publicados entre 2012 e 2025 mapeou associações consistentes entre calor ambiente e baixo peso ao nascer (o desfecho mais estudado, em 45,9% dos artigos), natimortalidade, mortalidade neonatal — sete estudos, todos mostrando risco aumentado — e anomalias congênitas, especialmente com exposição no início da gestação. Dois estudos que avaliaram exposição próxima ao parto encontraram escores de Apgar de 5 minutos mais baixos. Os riscos são maiores em populações social e geograficamente vulneráveis, e as janelas críticas de exposição ainda não estão conclusivamente definidas Holvoet et al., 2026. Os mecanismos mais citados pelos estudos são inflamação, desidratação, efeitos circulatórios com redução do fluxo úteroplacentário e comprometimento da termorregulação — todos hipotetizados a partir de conhecimento biológico prévio, e não medidos diretamente Holvoet et al., 2026.

Recém-nascidos, sobretudo prematuros ou de baixo peso, têm termorregulação imatura e alta relação superfície/massa, o que os torna especialmente propensos à desidratação e ao estresse térmico Holvoet et al., 2026. Nas crianças, a função renal frequentemente se altera durante ondas de calor MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Xu et al., 2014.

Uma orientação prática frequentemente perguntada e que tem resposta nas fontes: bebês em aleitamento materno exclusivo e sob demanda não precisam de água adicional, mesmo em condições extremamente quentes e secas MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Trabalhadores expostos ao calor

É o grupo com a evidência ocupacional mais robusta. A doença renal crônica de etiologia não tradicional está intimamente relacionada a trabalhar e morar em ambiente quente, embora ainda não esteja determinado se é causada por toxina, agente infeccioso, lesão direta pelo calor ou combinação de fatores MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Johnson et al., 2019. Entre canavieiros, 27% dos cortadores de cana queimada — o trabalho mais pesado — apresentaram redução significativa da função renal ao longo de seis meses de safra, 12 vezes mais frequente que entre trabalhadores com menor esforço físico MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Hanson et al., 2019. Na Europa, trabalhadores da construção e da agricultura estão sob risco particular de redução de horas de trabalho por exposição ao calor Lancet Countdown Europa, 2026.

Medicamentos: onde as fontes divergem

Este bloco exige honestidade com o aluno.

Divergência entre fontes

A posição das agências. A afirmação da OMS pode ser lida no original: no seu marco operacional para sistemas de saúde resilientes ao clima, a organização declara que "antidepressivos, anti-histamínicos, antipsicóticos e diuréticos podem predispor seus usuários à intermação ou ao estresse térmico quando as temperaturas estão altas" OMS, Operational framework, 2015. A OMS recomenda ainda que o médico esteja atento aos efeitos colaterais e ajuste a dose durante o tempo quente Hospers et al., 2024, descrevendo a orientação da OMS. O guia de bolso do Ministério da Saúde segue essa linha e lista, por classe, os riscos de desidratação, hipotensão, distúrbios eletrolíticos e hipertermia MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

O que a evidência experimental sustenta. Uma revisão sistemática com metanálise de 35 estudos randomizados (353 participantes) testou se os medicamentos listados pela OMS de fato elevam a temperatura central sob estresse térmico. Encontrou elevação para anticolinérgicos fortes a temperaturas ≥ 30 °C (+0,42 °C; IC95% 0,04–0,79), com evidência limitada essencialmente à atropina; betabloqueadores não seletivos (+0,11 °C; 0,02–0,19); adrenalina (+0,41 °C; 0,21–0,61); e antiparkinsonianos (+0,13 °C; 0,07–0,19). Antidepressivos, diuréticos e fármacos com efeito anticolinérgico fraco não alteraram a temperatura central Hospers et al., 2024. Os autores recomendam que os médicos interpretem com cautela a mensagem convencional de saúde pública sobre alguns fármacos, como os antidepressivos.

Como conciliar, sem apagar nenhuma das duas. As duas fontes medem coisas diferentes. A metanálise mede temperatura central em laboratório; o guia descreve vias indiretas — desidratação por náusea, vômito ou diarreia, hipotensão, hiponatremia, hipopotassemia — que agravam o quadro sem passar pela termorregulação. Um diurético pode não elevar a temperatura central e ainda assim ser perigoso numa onda de calor por depleção de volume. Coerente com isso, o guia registra que mais de 30% das pessoas cuja saúde foi afetada durante ondas de calor na Austrália e na França estavam em uso de diuréticos, a maioria com 70 anos ou mais MS/OPAS, Guia de bolso 2024, citando Faunt et al., 1995 e Argaud et al., 2007. A evidência epidemiológica citada pela própria metanálise indica risco aproximadamente duas vezes maior de morbimortalidade relacionada ao calor entre usuários de medicamentos psiquiátricos, cardiovasculares ou com alta atividade anticolinérgica Hospers et al., 2024.

Limitação decisiva. A base experimental é composta majoritariamente de homens jovens e saudáveis — idade média inferior a 30 anos, 16 mulheres entre 353 participantes (4,5%), apenas um estudo com população clínica — sob exposições curtas Hospers et al., 2024. Ou seja: a ausência de efeito observada não foi testada na população que de fato adoece.

A recomendação prática que sobrevive a essa divergência não é suspender medicamentos. É a que o próprio guia formula: avaliar cada caso individualmente, lembrar que a desidratação altera a farmacocinética de praticamente qualquer fármaco, e ajustar a dose se necessário — com atenção redobrada em idosos dependentes, portadores de doenças crônicas e pessoas em polifarmácia MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

A regra que sai daqui vale para além dos medicamentos e volta a aparecer neste curso: a fonte diz onde olhar; o paciente diz o que fazer. Uma lista de classes indica em quem prestar atenção — não uma conduta a aplicar em bloco.

Fora da lista da OMS, um ensaio randomizado, duplo-cego e cruzado com 10 homens treinados mostrou que a nicotina transdérmica aumenta a carga térmica ao reduzir o fluxo sanguíneo cutâneo; a 30 °C, dois dos dez participantes (20%) não conseguiram completar o protocolo Moyen et al., 2024. A amostra é pequena e composta de homens jovens treinados, o que limita a extrapolação — mas é um sinal a considerar em fumantes e usuários de reposição de nicotina expostos a esforço no calor.

C. Exemplo clínico

Caso 3 — dois pacientes, o mesmo bairro

Dois homens de 70 anos, hipertensos, em uso de hidroclorotiazida. O primeiro mora com a filha, em casa com ventilador e sombra. O segundo mora sozinho, num cômodo de laje sem ventilação, em área de ilha de calor urbana, e passa o dia fora catando material reciclável. O medicamento é o mesmo; o risco não é. A diferença está inteiramente nas outras duas variáveis do modelo — exposição e proteção MS/OPAS, Guia de bolso 2024 —, e é sobre elas que a equipe consegue agir.

Na prática
  1. Monte, com os ACS, uma lista nominal do território cruzando as três variáveis: exposição (moradia, trabalho, ilha de calor), sensibilidade (idade, gestação, doença crônica, transtorno mental grave) e proteção (mora só? tem ventilação? entende a orientação?) MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  2. Priorize a visita domiciliar em pessoas com círculo social muito pequeno — o isolamento é fator de sensibilidade, não detalhe social MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  3. Ao revisar a prescrição antes da estação quente, foque nas vias indiretas — desidratação, hipotensão, distúrbio eletrolítico — e não apenas na termorregulação MS/OPAS, Guia de bolso 2024; Hospers et al., 2024.
  4. Na gestante e no recém-nascido, oriente ambiente fresco e hidratação; reforce que o lactente em aleitamento exclusivo sob demanda não precisa de água adicional Holvoet et al., 2026; MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
Take-home — Módulo 3
  1. Risco = exposição × sensibilidade × proteção; a equipe atua principalmente na primeira e na terceira MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  2. Em seis ondas de calor extremas, houve períodos não sobreviváveis para maiores de 65 anos ao sol — e, em duas delas, mesmo à sombra Guardian/Perkins-Kirkpatrick et al., 2026.
  3. Calor na gestação associa-se a baixo peso, natimortalidade, mortalidade neonatal e anomalias congênitas; janelas críticas ainda indefinidas Holvoet et al., 2026.
  4. A lista de medicamentos da OMS não foi confirmada em bloco: só alguns fármacos elevam a temperatura central, mas as vias indiretas continuam relevantes Hospers et al., 2024; MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  5. Viver sozinho e ter transtorno mental grave são fatores de risco explícitos, não observações sociológicas MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Módulo 4 · 11 minReconhecimento e manejo das doenças relacionadas ao calor

A. Introdução

Este é o módulo que muda a conduta na próxima segunda-feira. Ele responde a três perguntas: o que é cada quadro, o que fazer primeiro e quando encaminhar. E começa por um problema que atrapalha as três — o vocabulário.

Uma ressalva de escala, ainda no fio das três leituras do Módulo 1: a maioria dos pacientes que a onda de calor traz à unidade não terá "doença pelo calor" — terá uma doença comum agravada por ele (Módulo 2). Este módulo trata da menor das três fatias, a doença diretamente relacionada ao calor. É a que menos aparece — e a que mais mata rápido quando aparece.

B. Conteúdo

Antes de tudo: o problema das palavras

Divergência entre fontes — terminologia

O guia de bolso do Ministério da Saúde usa "insolação" para o quadro com temperatura entre 38,3 e 40 °C sem comprometimento neurológico, que pode evoluir; e "colapso pelo calor" para o quadro com temperatura acima de 40 °C e comprometimento do sistema nervoso central MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

O portal do mesmo Ministério da Saúde usa "insolação e golpe de calor", descrevendo o golpe de calor como a emergência em que o corpo é incapaz de regular a temperatura, com confusão, convulsões e perda de consciência MS, Ondas de Calor.

O protocolo assistencial em inglês usa a tríade heat cramps, heat exhaustion e heat stroke, definindo esta última pela presença de estado mental alterado Hyperthermia Administrative Guideline.

Recomendação do curso: ensinar pela descrição clínica — "temperatura elevada com estado mental preservado" versus "temperatura elevada com estado mental alterado" — e apresentar os três vocabulários como sinônimos aproximados. Discutir o quadro pelo nome, num serviço em que cada um usa um termo, é fonte previsível de erro.

O espectro clínico

Cãibras pelo calor

Contrações musculares dolorosas, geralmente em pernas e parede abdominal, por desequilíbrio eletrolítico. A temperatura é normal. Hyperthermia Administrative Guideline; Mohammed & Nashwan, 2026

Exaustão pelo calor

Depleção de sal e água, de início habitualmente gradual. À medida que progride, surgem taquicardia, hipotensão, temperatura elevada e cãibras muito dolorosas; há cefaleia, náusea e vômitos. Pode progredir para intermação. Na forma por esforço, há sudorese profusa, taquipneia e alcalose respiratória, que pode evoluir para acidose metabólica com lactato elevado. Hyperthermia Administrative Guideline; MS/OPAS, Guia de bolso 2024

Intermação / colapso pelo calor (heat stroke)

Falha do mecanismo de resfriamento. Definida pela presença de estado mental alterado; temperatura habitualmente acima de 40 °C. Sem termômetro disponível, o que a distingue da exaustão é o nível de consciência. Pode haver irritabilidade, delírio, hiperventilação, convulsões, encefalopatia e coma; taquicardia, hipotensão, prolongamento do QT, coagulação intravascular disseminada, edema pulmonar ou SDRA. Hyperthermia Administrative Guideline; MS/OPAS, Guia de bolso 2024

Dois cenários típicos, não um

Um atalho clínico útil, e bem sustentado: a intermação concentra-se em dois grupos bastante diferentes entre si Roca Villanueva et al., 2019:

  • Pessoas de qualquer idade que realizam esforço físico prolongado sem hidratação suficiente — a forma por esforço. É o trabalhador na laje, o atleta, o militar em treinamento.
  • Idosos ou pacientes debilitados, especialmente se em uso de determinados medicamentos, como diuréticos ou sedativos — a forma clássica, por exposição passiva.

Os dois chegam ao serviço por caminhos diferentes: o primeiro em geral trazido por colegas, com história clara de esforço; o segundo, muitas vezes encontrado em casa, sem história e sem testemunha. A mesma fonte lembra que o quadro exige diagnóstico e tratamento urgentes para evitar lesões frequentemente irreversíveis no sistema nervoso central, pulmões, coração e rins Roca Villanueva et al., 2019.

Sinais de alerta que a população deve reconhecer

O Ministério da Saúde lista, para orientação ao público: transpiração excessiva, fraqueza, tontura, náuseas, dor de cabeça, cãibras musculares e diarreia — nesses casos, procurar a unidade de saúde mais próxima para avaliação profissional MS, Ondas de Calor. É a lista que deve ir para o cartaz da sala de espera e para o grupo de mensagens da equipe. O plano andino da OPAS enumera de forma convergente as consequências de episódios de temperaturas extremas muito altas: patologias dérmicas, desidratação, insolação, síncope, cefaleia, náuseas, vômitos, diarreia e alterações do ritmo cardíaco Plan andino, 2020.

História e exame: o que perguntar

O protocolo assistencial organiza a anamnese em seis itens objetivos: temperatura ambiente, medicamentos e drogas em uso, nível de esforço físico, tempo de exposição ao calor, vestimenta e ingestão de líquidos Hyperthermia Administrative Guideline. Sinais a procurar: rubor, pele seca ou suada, cãibras, náusea/vômito, taquicardia, hipotensão, má perfusão, temperatura elevada e alteração do estado mental Hyperthermia Administrative Guideline. O mesmo protocolo lembra os diferenciais: cãibras, edema, exaustão, síncope e intermação pelo calor, mas também uso de drogas estimulantes, febre/sepse, desidratação e reação adversa a medicamento Hyperthermia Administrative Guideline.

Manejo inicial: a ordem importa

O tratamento definitivo da doença relacionada ao calor é o resfriamento corporal total Hyperthermia Administrative Guideline. A sequência descrita:

  1. Retirar do ambiente quente. Levar a pessoa para área fresca e protegê-la do sol ou de outra fonte externa de calor; remover o máximo de roupa possível e afrouxar peças restritivas Hyperthermia Administrative Guideline.
  2. Resfriar por evaporação. Depois da imersão em água gelada, a evaporação — borrifar continuamente a pele exposta com água morna enquanto se ventila a pessoa — é a via mais rápida de resfriamento. Também se descreve cobrir o paciente com um lençol saturado de água gelada Hyperthermia Administrative Guideline.
  3. Bolsas de gelo são segunda escolha. São menos eficazes que a evaporação; se usadas, preferir face, palmas das mãos e plantas dos pés à aplicação no tronco, e monitorar a pele, que é suscetível a lesão por exposição prolongada ao gelo — cobrir a bolsa com um lençol e mudar o local ajuda a evitar dano Hyperthermia Administrative Guideline.
  4. Hidratar conforme o estado de consciência. Se alerta e orientado, oferecer pequenos goles de líquido frio. Se houver alteração do estado mental, verificar a glicemia capilar e não oferecer líquidos por via oral Hyperthermia Administrative Guideline.
  5. Monitorização e suporte. Monitorização cardíaca e manejo de via aérea conforme necessário; reposição volêmica indicada em sinais de choque hipovolêmico; a hidratação oral ou intravenosa restabelece o balanço hídrico rapidamente Hyperthermia Administrative Guideline.

O gatilho para tratar como emergência é explícito no protocolo: temperatura acima de 40 °C (104 °F) ou alteração do estado mental Hyperthermia Administrative Guideline.

Quando encaminhar agora — e quando observar e reavaliar

A decisão tem dois lados. De um, os sinais que exigem encaminhamento imediato; de outro, os quadros que podem ser observados e reavaliados na própria unidade. O que move um paciente de uma coluna para a outra é explícito, e vem logo depois delas.

Encaminhar agora
  • Qualquer alteração do estado mental — confusão, delírio, sonolência, convulsão, rebaixamento do sensório Hyperthermia Administrative Guideline; MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  • Temperatura ≥ 40 °C Hyperthermia Administrative Guideline; MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  • Síncope ou hipotensão com má perfusão MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  • Incapacidade de manter hidratação oral — vômitos persistentes, diarreia importante Hyperthermia Administrative Guideline.
  • Sinais sugestivos de rabdomiólise ou lesão renal — mialgia intensa após esforço no calor, urina escura, oligúria Mohammed & Nashwan, 2026; MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  • Dispneia importante, taquipneia ou sinais de descompensação cardiorrespiratória MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
Observar e reavaliar em 30 min
  • Cãibras pelo calor com temperatura normal e estado mental preservado Hyperthermia Administrative Guideline.
  • Exaustão leve que melhora com repouso, ambiente fresco e pequenos goles de líquido, sem alteração de consciência Hyperthermia Administrative Guideline; MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  • Sudorese profusa e sensação de fraqueza sem confusão, síncope ou vômito persistente — hidratar, resfriar e vigiar.

A regra de corte. Qualquer sinal de escalada — confusão ou sonolência, vômito que impede hidratar, síncope ou hipotensão, temperatura subindo, dispneia — move o paciente da coluna "observar" para a "encaminhar agora", na hora. Na dúvida entre as duas, trate como a da esquerda Hyperthermia Administrative Guideline; MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Comece o resfriamento na unidade e mantenha-o durante o transporte: retirar do ambiente quente é a primeira intervenção, não a última Hyperthermia Administrative Guideline.

Três armadilhas

  • Confundir distúrbio do sódio com intermação. Tanto a hipernatremia da desidratação quanto a hiponatremia grave por ingestão excessiva de líquidos hipotônicos causam confusão e rebaixamento de consciência, e ambas podem ser confundidas com colapso pelo calor MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  • Esquecer febre e sepse no diferencial. Estão explicitamente na lista de diagnósticos diferenciais do protocolo Hyperthermia Administrative Guideline.
  • Tratar cãibras e exaustão como "a mesma coisa mais leve". Nas cãibras a temperatura é normal; na exaustão há depleção de sal e água com repercussão hemodinâmica e possibilidade de progressão Hyperthermia Administrative Guideline.

C. Exemplo clínico

Caso 4 — o pedreiro confuso

Homem de 52 anos trabalhando em laje exposta desde as 8h, sem pausas. Por volta das 14h, colegas o trazem à UBS: fala desconexa, não sabe informar o dia, pele quente, taquicárdico. Temperatura axilar 40,2 °C. Pelo critério do protocolo — temperatura acima de 40 °C ou estado mental alterado —, isso é intermação até prova em contrário Hyperthermia Administrative Guideline. A conduta: retirar do calor, remover a roupa, iniciar borrifação com água morna sob ventilação, verificar glicemia capilar (não oferecer líquido por via oral), monitorizar e acionar transporte, mantendo o resfriamento no trajeto Hyperthermia Administrative Guideline. Após a estabilização, investigar função renal — a rabdomiólise por esforço no calor é uma via reconhecida de lesão renal aguda Mohammed & Nashwan, 2026.

Caso 5 — a mesma tarde, outro paciente

Adolescente de 16 anos, após treino de futebol, com cãibras dolorosas em panturrilhas, sudorese profusa, lúcido e orientado, temperatura axilar 36,8 °C. Aqui não há exaustão nem intermação: cãibras pelo calor cursam com temperatura normal Hyperthermia Administrative Guideline. Conduta: ambiente fresco, repouso, goles de líquido frio, e orientação sobre pausas e hidratação. Reavaliar se surgirem cefaleia, náusea, vômito ou hipotensão — sinais de que o quadro está progredindo para exaustão Hyperthermia Administrative Guideline.

Na prática
  1. Padronize uma frase de triagem para a recepção em dias de alerta: "está confuso, desmaiou ou não consegue beber?" — qualquer "sim" vira atendimento imediato Hyperthermia Administrative Guideline.
  2. Tenha na sala de emergência o que resfria: borrifador, ventilador e lençóis. A evaporação supera as bolsas de gelo Hyperthermia Administrative Guideline.
  3. Em todo paciente com alteração do estado mental no calor, cheque a glicemia capilar antes de oferecer qualquer líquido Hyperthermia Administrative Guideline.
  4. Registre no prontuário o tempo de exposição, o esforço, a vestimenta e os medicamentos em uso — são os seis itens da história dirigida Hyperthermia Administrative Guideline.
Take-home — Módulo 4
  1. Cãibras: temperatura normal. Exaustão: depleção de sal e água com repercussão. Intermação: estado mental alterado Hyperthermia Administrative Guideline.
  2. Sem termômetro, o divisor de águas entre exaustão e intermação é o nível de consciência Hyperthermia Administrative Guideline.
  3. Resfriamento por evaporação — borrifar e ventilar — é mais eficaz que bolsas de gelo; se usá-las, preferir face, palmas e plantas Hyperthermia Administrative Guideline.
  4. Alteração do estado mental: checar glicemia e não oferecer líquidos por via oral Hyperthermia Administrative Guideline.
  5. O vocabulário brasileiro é ambíguo: descreva o quadro, não confie no rótulo MS/OPAS, Guia de bolso 2024; MS, Ondas de Calor.

Módulo 5 · 8 minPrevenção e preparação dos profissionais e serviços

A. Introdução

Quando o alerta de calor chega, já é tarde para decidir quem vai visitar os idosos que moram sozinhos ou onde se guarda o ventilador. Esta última aula converte tudo o que veio antes em duas listas: o que orientar ao paciente e o que combinar na equipe antes da próxima estação quente.

B. Conteúdo

Orientação ao paciente e à família

O guia do Ministério da Saúde organiza as recomendações por situação MS/OPAS, Guia de bolso 2024:

SituaçãoOrientações
Em casa Abrir as janelas de manhã cedo e à noite para circular o ar; fechar cortinas ou persianas assim que o sol nascer; fechar as janelas se estiver mais quente fora do que dentro; beber água ou líquidos sem álcool — no mínimo 2 litros por dia —, mesmo sem sede; roupas leves, largas e de cores claras; manter a pele hidratada; banhos frios com frequência e antes de dormir; alimentos leves e frescos; descobrir quem, na vizinhança, está mais exposto ou é mais sensível.
Ao sair Protetor solar FPS 50 ou superior antes de sair, reaplicado a cada 90 minutos; proteger a cabeça e usar óculos com proteção UV; permanecer em área fresca, na sombra ou com ar-condicionado; evitar qualquer atividade física nas horas mais quentes, das 11h às 15h; não permanecer muito tempo dentro de veículo estacionado.
No trabalho Proteger a cabeça sob o sol e usar óculos com proteção UV; fazer pausas frequentes na sombra e manter-se bem hidratado; não trabalhar sob o sol se já houver algum problema nos rins.

Ressalva clínica à meta de 2 litros. É uma orientação geral de população — não uma prescrição universal. Em pacientes com insuficiência cardíaca ou doença renal, a meta hídrica é individual e pode ser bem menor; vale aqui o mesmo princípio dos medicamentos (Módulo 3): a recomendação geral aponta a direção, o caso concreto define o número. Nenhuma das fontes do curso qualifica esse valor — a ressalva é do próprio curso, para um público clínico.

O portal do Ministério acrescenta: usar ventiladores e ar-condicionado sempre que possível, lembrando que centros comunitários e shoppings podem servir de refúgio nos horários mais quentes; evitar bebidas alcoólicas ou com cafeína, que podem aumentar a desidratação; e que pessoas com condições preexistentes devem monitorar rigorosamente os sintomas e ajustar medicações conforme orientação médica MS, Ondas de Calor.

O que cabe ao profissional de saúde

O guia enumera sete atribuições, e vale lê-las como um roteiro de preparação MS/OPAS, Guia de bolso 2024: identificar agravos atribuíveis às mudanças climáticas; reconhecer os efeitos colaterais dos medicamentos que podem agravar esses problemas e ajustar a prescrição; modificar os procedimentos de atenção e monitoramento — hidratação mais frequente, medição de temperatura, modificação da dieta; manter-se a par dos alertas precoces; identificar as pessoas mais expostas ou sensíveis e orientá-las; estar à disposição durante eventos extremos para garantir a continuidade do serviço; e participar de educação continuada.

Uma forma de organizar tudo isso: os níveis de prevenção

As medidas de adaptação do setor saúde podem ser mapeadas nos níveis de prevenção que a equipe já usa todos os dias — o que dispensa aprender um vocabulário novo Ciganda, sessão 9, curso OPAS/OMS 2022:

NívelNo cuidado habitualAplicado ao calor extremo
PrimáriaEducação e promoção da saúdeOrientação domiciliar e de trabalho; comunicação antes da estação quente; mapeamento das populações vulneráveis do território
SecundáriaDiagnóstico precoce e tratamento, evitando progressãoSistemas de alerta precoce para ondas de calor; reconhecimento de exaustão antes que vire intermação; revisão antecipada de prescrições
TerciáriaReabilitação e reintegraçãoSeguimento de quem teve lesão renal aguda ou descompensação; continuidade do cuidado após o evento

A formulação que resume a mudança de postura é curta e serve de slogan para a aula: "devemos gerir riscos, e não crises" — hoje, a maior parte das ações e energias se orienta às situações de emergência Ciganda, sessão 9, curso OPAS/OMS 2022.

O marco da OMS: dez componentes

Para a equipe que quiser ir além da própria unidade, a OMS estruturou a resiliência climática dos sistemas de saúde em dez componentes: liderança e governança; força de trabalho em saúde; avaliação de vulnerabilidade, capacidade e adaptação; monitoramento integrado de risco e alerta precoce; pesquisa em saúde e clima; tecnologias e infraestrutura resilientes e sustentáveis; gestão dos determinantes ambientais da saúde; programas de saúde informados pelo clima; preparação e gestão de emergências; e financiamento OMS, Operational framework, 2015. Eles servem de estrutura para um plano de adaptação, incluindo a alocação de papéis, responsabilidades e recursos.

Dois deles falam diretamente ao que já foi dito nesta aula. O componente de infraestrutura resiliente pede que a localização das unidades e os códigos de construção considerem o risco climático atual e projetado, incluindo aumento de frequência e intensidade de ondas de calor, e que se considere a resiliência de serviços essenciais como o fornecimento de energia, que pode ser interrompido em eventos extremos OMS, Operational framework, 2015. O componente de monitoramento e alerta precoce lembra que sistemas de alerta só previnem doença, lesão e morte evitáveis quando acoplados a capacidade de resposta adequada — o alerta sozinho não protege ninguém OMS, Operational framework, 2015.

O que cabe à vigilância em saúde

Educar a população; realizar vigilância epidemiológica de doenças causadas pelo calor, entre outras sensíveis ao clima; estabelecer sistemas de alerta, planos de intervenção e conscientização pública, identificando os grupos de maior risco; e priorizar grupos em situação de risco ou com barreiras de acesso — em especial indígenas, comunidades rurais e remotas e pessoas em situação de rua MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

O que cabe à gestão

Preparar os serviços para um clima cada vez mais quente, com ambientes adequados para o atendimento e condições de trabalho convenientes para as equipes; garantir a continuidade dos serviços durante eventos extremos, com ênfase em cada grupo de risco; assegurar que as unidades estejam preparadas para maior demanda — lotação de pessoal, salas de emergência, acesso a medicamentos; e criar plano de contingência MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

O serviço também é vulnerável

Vale dizer isso explicitamente ao aluno, porque costuma ser esquecido. O guia lista quatro riscos concretos MS/OPAS, Guia de bolso 2024: incapacidade de responder ao aumento constante da demanda; quedas de energia que comprometem a prestação de serviços; parada do sistema de ar-condicionado durante o evento; e unidades que simplesmente não foram construídas para resistir a calor interno excessivo.

Comunicação durante alertas de calor

No Brasil, é o INMET que declara e comunica o evento enquanto ele ocorre, nomeando período, estados afetados e temperaturas máximas observadas, além de emitir avisos meteorológicos especiais Vieira, manuscrito Sul fev/2024. A unidade não precisa produzir a informação meteorológica: precisa ter combinado antes o que fará quando ela chegar.

Uma regra para o conteúdo da mensagem à população: dizer o que fazer, o que vigiar e aonde ir — não o quanto o calor é perigoso. A lista de sinais de alerta e as orientações domiciliares já são assim. O motivo é prático: o medo mobiliza uma vez e depois anestesia ou paralisa; a mensagem que capacita sustenta comportamento ao longo de toda a estação quente.

Existe um nome técnico para essa articulação. A Organização Meteorológica Mundial define serviço climático como um auxílio à decisão, derivado de informação climática, que ajuda pessoas e organizações a decidir melhor antes do evento. Para o setor saúde, um serviço climático pode melhorar a comunicação de risco aos profissionais, identificar as populações mais vulneráveis, prever quando e onde o risco será maior e direcionar intervenções Fletcher et al., 2021. Para funcionar, precisa ser cientificamente crível, responder às necessidades de quem o usa e chegar em tempo e formato aproveitáveis — o que só se consegue com coprodução: setores climático e de saúde trabalhando juntos durante o desenvolvimento, e não um entregando um relatório ao outro Fletcher et al., 2021.

Há um exemplo latino-americano concreto do que isso significa na prática. Em Machala, no Equador, após um dos mais fortes eventos de El Niño já registrados, um modelo que incorporou previsões de precipitação, temperatura mínima e do índice Niño3.4 foi iniciado em 1º de janeiro de 2016 e previu corretamente um pico precoce de dengue em março, com 90% de chance de superar a incidência média dos cinco anos anteriores — uma previsão feita no começo do ano para a temporada inteira Lowe et al., 2017. O desfecho é dengue, não calor; o que se transfere é o modelo de trabalho.

Duas advertências acompanham esse entusiasmo. A primeira: na América Latina e no Caribe, dos 179 países que responderam ao levantamento do Lancet Countdown, apenas cinco indicaram que serviços climáticos nacionais orientam suas políticas e planos de investimento em saúde — e nenhum deles é da região Code Red LAC, 2022. A segunda: ao desenhar gatilhos de alerta, é preciso considerar não um tipo de evento isolado, mas os efeitos compostos de eventos extremos sucessivos e interagentes, e a dinâmica temporal de cada um — a duração de uma onda de calor, a sequência de seca seguida de chuva intensa Alcayna et al., 2022.

Por fim, uma nota sobre mitigação que costuma surpreender a plateia clínica: o setor saúde emite cerca de 4% dos gases de efeito estufa do mundo, mais que a aviação ou a navegação Hess et al., BMJ. O guia do Ministério da Saúde já inclui, entre as atribuições do gestor, reduzir a produção de gases de efeito estufa pelo próprio setor MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

A escala do problema justifica o esforço: na Europa, os alertas diários extremos triplicaram entre 1991–2000 e 2015–2024, e 83,3% das 209 cidades e municípios europeus que responderam ao levantamento já haviam realizado uma avaliação de risco e vulnerabilidade climática em 2023 Lancet Countdown Europa, 2026. É uma referência de para onde a organização de serviços está indo.

Por fim, um ponto de registro: como o código X30 é praticamente inutilizado nas declarações de óbito brasileiras Vieira, manuscrito Sul fev/2024, a contribuição do calor permanece invisível nas estatísticas oficiais. Registrar a exposição ao calor quando ela for clinicamente pertinente é uma ação de vigilância ao alcance de cada profissional.

C. Exemplo clínico

Caso 6 — a UBS que se preparou em outubro

Em outubro, antes do verão, a equipe de uma UBS faz três coisas. Primeiro, os ACS marcam no mapa do território as microáreas de laje sem sombra e listam nominalmente os moradores com mais de 70 anos que vivem sozinhos — fator de sensibilidade explícito MS/OPAS, Guia de bolso 2024. Segundo, a enfermagem confere borrifador, ventilador e lençóis na sala de emergência e treina a frase de triagem do Módulo 4. Terceiro, o médico revisa as prescrições dos pacientes dessa lista, atento a desidratação, hipotensão e distúrbios eletrolíticos MS/OPAS, Guia de bolso 2024. Nada disso exige recurso novo — exige ter sido feito antes do alerta.

Na prática
  1. Antes da estação quente, produza a lista nominal de risco do território e defina quem visita quem no dia do alerta MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  2. Confirme com a gestão os pontos frágeis do próprio serviço: energia, climatização e capacidade de pronto-atendimento MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  3. Combine a mensagem única que a equipe dará à população: hidratação sem álcool nem cafeína, evitar esforço entre 11h e 15h, ambiente fresco, e os sinais de alerta que exigem procurar a unidade MS/OPAS, Guia de bolso 2024; MS, Ondas de Calor.
  4. Registre a exposição ao calor no prontuário e na declaração de óbito quando for clinicamente pertinente Vieira, manuscrito Sul fev/2024.
Take-home — Módulo 5
  1. As orientações domiciliares são simples, específicas e verificáveis: ≥ 2 L de líquidos sem álcool, janelas e cortinas manejadas por horário, nenhum esforço entre 11h e 15h MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  2. Ajustar prescrição e intensificar monitoramento — hidratação, temperatura, dieta — são atribuições explícitas do profissional MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  3. O próprio serviço é vulnerável: energia, climatização e capacidade instalada precisam ser verificadas antes MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  4. Grupos com barreira de acesso — indígenas, comunidades remotas, pessoas em situação de rua — devem ser priorizados na comunicação MS/OPAS, Guia de bolso 2024.
  5. Adaptação cabe nos níveis de prevenção que a equipe já usa: gerir riscos, não crises Ciganda, sessão 9, curso OPAS/OMS 2022.
  6. O alerta vem do INMET; o plano precisa existir antes dele — e alerta sem capacidade de resposta não protege ninguém Vieira, manuscrito Sul fev/2024; OMS, Operational framework, 2015.

Parte IVSugestões de elementos visuais

As descrições abaixo destinam-se ao designer ou ao produtor do curso. Nenhuma imagem foi gerada. Gráficos só são sugeridos onde as fontes fornecem dados adequados.

Módulo 1

Infográfico 1.1 — Por que não existe "o número"

Três termômetros lado a lado sobre silhuetas de cidades brasileiras diferentes, cada um marcando a mesma temperatura, com a curva de distribuição local da série histórica abaixo de cada um: no primeiro, a marca cai no meio da curva; no segundo, na cauda; no terceiro, além dela. Legenda: "onda de calor é posição na curva local, não valor absoluto" Guo et al., 2017; Graffy et al., 2024.

Infográfico 1.2 — Dia quente, noite quente

Duas linhas de 24 horas empilhadas. A superior: dia quente seguido de noite fresca, com a curva caindo abaixo do limiar noturno. A inferior: dia quente seguido de noite quente, com a curva permanecendo acima. Marcar os limiares de Londres (32 °C dia, 18 °C noite) e destacar que o segundo padrão tem maior risco de mortalidade Murage et al., 2017.

Tabela 1.3 — Quatro definições, quatro janelas

Reproduzir a tabela comparativa do Módulo 1 (SMN argentino, Plan andino, Lancet Countdown, estudo MCC) e, abaixo, uma faixa de calendário de um mesmo verão hipotético com quatro barras coloridas mostrando os dias que cada critério classificaria como onda de calor. O objetivo é que o aluno veja as barras não coincidirem Chesini et al., 2019; Plan andino, 2020; Roca Villanueva et al., 2019; Guo et al., 2017.

Gráfico 1.4 — Onde apareceu o excesso (dados disponíveis)

Barras horizontais com a distribuição percentual do excesso de óbitos por capítulo da CID-10 no evento de fevereiro de 2024 no Sul do Brasil: circulatório 21%, respiratório 17%, endócrino 17%, causas externas 17%, infecciosas 13%, renal 11%. Ao lado, uma barra isolada e zerada rotulada "X30 — exposição a calor natural excessivo: 0". Nota obrigatória no rodapé do gráfico: nenhum grupo isolado sobreviveu à correção de Bonferroni Vieira, manuscrito Sul fev/2024.

Módulo 2

Infográfico 2.1 — As duas saídas do calor

Corte esquemático da pele e de um vaso, com duas setas: "vasodilatação cutânea" e "evaporação do suor". Sobre a segunda seta, uma barra de umidade que, ao subir, fecha progressivamente a seta. Texto de apoio: sem evaporação, resta apenas metade do sistema Mohammed & Nashwan, 2026; Guardian, 2026.

Infográfico 2.2 — A cascata da hipovolemia

Fluxo vertical em cinco caixas: transpiração e vasodilatação → hipovolemia → hipotensão → síncope → queda/trauma. Ramificação lateral a partir de "hipovolemia" para "queda do fluxo renal → lesão renal aguda". Todas as setas rotuladas com o mecanismo, não apenas com o desfecho MS/OPAS, Guia de bolso 2024; Mohammed & Nashwan, 2026.

Tabela 2.3 — Órgão × manifestação × sinal a procurar

Quatro linhas (cardiovascular, renal, respiratório, neurológico), três colunas: manifestação descrita nas fontes; sinal clínico correspondente; o que perguntar ou medir na consulta. Útil como material de bolso MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Módulo 3

Infográfico 3.1 — As três variáveis do risco

Três círculos parcialmente sobrepostos — exposição, sensibilidade, proteção — com exemplos reais do território brasileiro em cada setor e, na interseção central, "risco máximo". Evitar o diagrama de Venn decorativo: cada setor deve conter itens nomeados das listas do guia MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Checklist 3.2 — Mapeamento do território (imprimível)

Formulário de uma página, para ACS, com três blocos de caixas de seleção correspondentes às três variáveis, campo para nome e microárea, e um campo final "prioridade de visita no dia do alerta: alta / média / baixa" MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Gráfico 3.3 — Medicamentos e temperatura central (dados disponíveis)

Gráfico de estimativas pontuais com intervalos de confiança, em °C, no eixo horizontal, com linha vertical no zero: anticolinérgicos fortes +0,42 (0,04–0,79); adrenalina +0,41 (0,21–0,61); antiparkinsonianos +0,13 (0,07–0,19); betabloqueadores não seletivos +0,11 (0,02–0,19); e, cruzando o zero, antidepressivos, diuréticos e anticolinérgicos fracos. Rodapé obrigatório: 353 participantes, 4,5% mulheres, idade média inferior a 30 anos, um único estudo em população clínica Hospers et al., 2024.

Módulo 4

Infográfico 4.1 — A escada de gravidade

Três degraus ascendentes com gradiente térmico, cada um trazendo o achado que o define: cãibras (temperatura normal), exaustão (depleção de sal e água, hipotensão, náusea), intermação (estado mental alterado). Sobre o terceiro degrau, uma faixa vermelha: "emergência" Hyperthermia Administrative Guideline.

Infográfico 4.2 — Ordem de eficácia do resfriamento

Quatro ícones em fila ordenada, do mais para o menos eficaz: imersão em água gelada → borrifação com ventilação (evaporação) → lençol saturado com água gelada → bolsas de gelo em face, palmas e plantas. Cada ícone com um selo de posição, e o último marcado "menos eficaz que evaporação" Hyperthermia Administrative Guideline.

Fluxograma / checklist 4.3 — Cartão de parede da sala de emergência

Uma pergunta no topo — "estado mental alterado ou temperatura ≥ 40 °C?" — com duas saídas. Ramo SIM: retirar do calor, despir, borrifar e ventilar, checar glicemia, monitorizar, acionar transporte, manter resfriamento no trajeto. Ramo NÃO: ambiente fresco, repouso, goles de líquido frio, reavaliar em 30 minutos e reentrar no fluxo se surgir cefaleia, vômito, hipotensão ou confusão Hyperthermia Administrative Guideline.

Módulo 5

Infográfico 5.1 — A casa ao longo do dia

Corte de uma casa em três momentos — manhã cedo, meio-dia, noite — mostrando janelas e cortinas abertas ou fechadas em cada um, conforme a orientação do guia. Formato pensado para a sala de espera e para redes sociais da unidade MS/OPAS, Guia de bolso 2024.

Checklist 5.2 — Preparação da unidade (imprimível)

Duas colunas: "antes da estação quente" (lista nominal de risco pronta; revisão de prescrições; material de resfriamento conferido; frase de triagem treinada; pontos frágeis do serviço verificados com a gestão) e "no dia do alerta" (visitas prioritárias definidas; mensagem única combinada; sala de emergência preparada; registro da exposição no prontuário) MS/OPAS, Guia de bolso 2024; Vieira, manuscrito Sul fev/2024.

Cartaz 5.3 — Sinais de alerta para a sala de espera

Sete ícones simples com os sinais listados pelo Ministério: transpiração excessiva, fraqueza, tontura, náusea, dor de cabeça, cãibras musculares, diarreia. Chamada única no rodapé: "procure a unidade de saúde mais próxima" MS, Ondas de Calor.

Infográfico 5.4 — Adaptação nos níveis de prevenção

Três faixas horizontais empilhadas (primária, secundária, terciária), cada uma dividida em duas colunas: à esquerda, o que a equipe já faz no cuidado habitual; à direita, a tradução para o calor extremo. Ao pé, a frase "gerir riscos, não crises". Serve como slide de fechamento do curso Ciganda, sessão 9, curso OPAS/OMS 2022.

Diagrama 5.5 — Como um alerta vira ação

Fluxo horizontal em quatro caixas com setas de mão dupla entre as duas centrais, para representar a coprodução: autoridade meteorológica (INMET) → informação climática → equipe de saúde → ação no território. Sobre a seta que sai da última caixa, um selo: "alerta sem capacidade de resposta não previne nada". Evitar desenhar como cadeia linear de mão única — a coprodução é o conteúdo do diagrama Fletcher et al., 2021; OMS, Operational framework, 2015.

Parte VQuiz de cada módulo

Duas questões por módulo, com foco em aplicação clínica e tomada de decisão. As respostas estão ocultas até serem abertas.

Módulo 1

1.1Uma enfermeira relata que, na semana do alerta de calor, sua unidade teve mais óbitos que o habitual, mas nenhuma declaração de óbito mencionou calor. Qual é a interpretação mais adequada?

  • A Como não há registro de calor, o alerta não teve impacto sobre a mortalidade local.
  • B Todas as mortes daquela semana devem ser reclassificadas como mortes por calor.
  • C O excesso de mortalidade em ondas de calor tende a se distribuir por várias causas e a permanecer ausente da causa básica de óbito.
  • D A ausência de registro indica erro de preenchimento em cada uma das declarações.
Ver resposta

Resposta correta: C.

No estudo da onda de calor de fevereiro de 2024 no Sul do Brasil, os 217 óbitos em excesso se distribuíram por quase todos os capítulos da CID-10, sem que nenhum grupo isolado sobrevivesse à correção para múltiplas comparações, e o código X30 registrou zero óbitos. A ausência do calor na causa básica é uma característica conhecida do registro, não prova de ausência de impacto — nem autoriza atribuir todas as mortes ao calor.

Vieira, manuscrito Sul fev/2024

1.2Dois dias de verão na mesma cidade: no dia A, máxima de 36 °C com umidade baixa; no dia B, máxima de 32 °C com umidade acima de 80%. Qual afirmação é mais consistente com as fontes?

  • A O dia A é necessariamente mais perigoso, pois a temperatura máxima é maior.
  • B A umidade elevada do dia B pode aumentar o risco cardiovascular mesmo sem temperatura extrema.
  • C A umidade só importa acima de 40 °C.
  • D Umidade elevada protege, por reduzir a perda de líquidos.
Ver resposta

Resposta correta: B.

Um estudo da Universidade Tulane observou aumento significativo de atendimentos de emergência por condições cardiovasculares quando a umidade ultrapassou 80%, mesmo com temperaturas do ar não extremas, e o aumento não foi gradual. O mecanismo é a perda da evaporação do suor, único mecanismo eficaz de dissipação quando a temperatura ambiente se aproxima da corporal.

Tulane, 2026; Guardian/Perkins-Kirkpatrick et al., 2026

Módulo 2

2.1Homem de 68 anos com doença renal crônica é atendido no terceiro dia de calor intenso, referindo mialgia após trabalho braçal, urina escura e volume urinário reduzido. Qual mecanismo melhor explica o risco renal nesse contexto?

  • A Aumento do fluxo sanguíneo renal pela vasodilatação sistêmica.
  • B Redistribuição do sangue para a pele, desidratação e rabdomiólise, com hipoperfusão e obstrução tubular.
  • C Elevação isolada da temperatura central, sem componente hemodinâmico.
  • D Retenção hídrica por excesso de ingestão de água.
Ver resposta

Resposta correta: B.

Durante o estresse térmico o sangue é redistribuído das vísceras para a pele, reduzindo o fluxo renal; a desidratação agrava a depleção de volume, e a rabdomiólise por esforço libera mioglobina, que se acumula nos túbulos causando obstrução e toxicidade oxidativa. Até um terço dos hospitalizados por estresse térmico desenvolve lesão renal aguda, sobretudo com diagnóstico tardio.

Mohammed & Nashwan, 2026; MS/OPAS, Guia de bolso 2024

2.2Durante uma onda de calor, um paciente que ingeriu grandes volumes de líquido hipotônico apresenta irritabilidade e rebaixamento progressivo da consciência. Qual é a implicação prática mais importante?

  • A O quadro confirma intermação e dispensa investigação adicional.
  • B A hiponatremia grave pode simular intermação, e o distúrbio do sódio precisa entrar no raciocínio.
  • C A ingestão abundante de líquidos hipotônicos exclui qualquer risco relacionado ao calor.
  • D A conduta correta é aumentar ainda mais a oferta de água livre.
Ver resposta

Resposta correta: B.

O guia registra que a hiponatremia grave por intoxicação hídrica causa irritabilidade, confusão, rebaixamento progressivo da consciência, convulsões e coma, e que tanto a hiponatremia quanto a hipernatremia podem ser confundidas com colapso pelo calor. Reconhecer isso muda a investigação e a conduta.

MS/OPAS, Guia de bolso 2024

Módulo 3

3.1Uma médica pergunta se deve suspender a sertralina de uma paciente antes do verão, "porque a OMS diz que antidepressivo atrapalha a termorregulação". Qual resposta é mais bem sustentada pelas fontes?

  • A Sim, todos os antidepressivos devem ser suspensos durante o verão.
  • B A metanálise disponível não encontrou alteração da temperatura central com antidepressivos, mas a base é de homens jovens saudáveis — a conduta é individualizar e monitorar, não suspender por regra.
  • C A questão está encerrada: antidepressivos comprovadamente não oferecem nenhum risco no calor.
  • D A orientação da OMS deve ser seguida literalmente, sem considerar a evidência experimental.
Ver resposta

Resposta correta: B.

A revisão sistemática com metanálise de 35 estudos não encontrou alteração da temperatura central com antidepressivos, diuréticos ou anticolinérgicos fracos, e os autores recomendam cautela ao repassar a mensagem convencional. Porém, a base experimental tem 353 participantes majoritariamente homens com menos de 30 anos, apenas 4,5% mulheres e um único estudo em população clínica — e a evidência epidemiológica citada indica risco cerca de duas vezes maior entre usuários de medicamentos psiquiátricos. "Não demonstrado em jovens saudáveis" não equivale a "seguro em idosos doentes".

Hospers et al., 2024; MS/OPAS, Guia de bolso 2024

3.2Numa reunião de equipe, é preciso escolher qual usuário visitar primeiro no dia do alerta. Qual perfil concentra mais fatores descritos nas fontes?

  • A Homem de 40 anos, hipertenso controlado, morando com a família em casa ventilada.
  • B Mulher de 82 anos, com insuficiência cardíaca, morando sozinha em cômodo sem ventilação em área de ilha de calor urbana.
  • C Adolescente saudável que joga futebol à noite.
  • D Gestante de primeiro trimestre, sem comorbidades, em domicílio climatizado.
Ver resposta

Resposta correta: B.

O perfil acumula fatores das duas listas: sensibilidade (idade avançada, doença crônica, círculo social muito pequeno) e exposição (ilha de calor urbana, ausência de climatização). O guia é explícito ao afirmar que pessoas com vários fatores simultâneos são as de maior risco, e registra risco de morte 34% maior em áreas mais densamente povoadas. Isso não significa que os demais perfis não mereçam orientação — significa que a prioridade da visita é esta.

MS/OPAS, Guia de bolso 2024

Módulo 4

4.1Você atende, sem termômetro disponível, dois trabalhadores trazidos da mesma obra. O primeiro está lúcido, com cãibras e sudorese profusa; o segundo responde com fala desconexa e não sabe informar o dia. Qual é a conduta correta?

  • A Ambos podem ser observados na unidade, pois não há febre documentada.
  • B O segundo tem intermação até prova em contrário; iniciar resfriamento, checar glicemia e acionar transporte.
  • C Sem termômetro não é possível diferenciar os quadros.
  • D O primeiro é o mais grave, pois a sudorese profusa indica falência termorregulatória.
Ver resposta

Resposta correta: B.

A intermação é definida pela presença de estado mental alterado, e o protocolo afirma explicitamente que, quando não há termômetro disponível, é o nível de consciência que a distingue da exaustão. O gatilho para tratar como emergência é temperatura acima de 40 °C ou alteração do estado mental. Em paciente com estado mental alterado, checar a glicemia capilar e não oferecer líquidos por via oral.

Hyperthermia Administrative Guideline

4.2A unidade dispõe de bolsas de gelo, ventilador, borrifador de água e lençóis. Qual é a estratégia de resfriamento mais eficaz entre as disponíveis?

  • A Bolsas de gelo aplicadas ao tronco.
  • B Borrifar continuamente a pele exposta com água morna enquanto se ventila o paciente.
  • C Bolsas de gelo isoladamente em virilha e axilas, sem outras medidas.
  • D Aguardar a chegada do transporte antes de iniciar qualquer resfriamento.
Ver resposta

Resposta correta: B.

Depois da imersão em água gelada, a evaporação — borrifação com ventilação — é a via mais rápida de resfriamento. As bolsas de gelo são menos eficazes que a evaporação e, quando usadas, devem ser preferencialmente aplicadas em face, palmas e plantas, e não no tronco. Retirar o paciente do ambiente quente é a primeira intervenção, e não algo a adiar até o transporte.

Hyperthermia Administrative Guideline

Módulo 5

5.1A gestão pede à equipe uma medida de preparação para o verão que possa ser executada sem recurso financeiro adicional. Qual proposta está mais alinhada às atribuições descritas nas fontes?

  • A Aguardar o alerta do INMET para então definir as prioridades de atendimento.
  • B Construir antecipadamente a lista nominal de pessoas mais expostas e mais sensíveis do território e revisar suas prescrições.
  • C Suspender preventivamente diuréticos de todos os idosos cadastrados.
  • D Encaminhar todos os idosos à emergência no primeiro dia de alerta.
Ver resposta

Resposta correta: B.

Identificar as pessoas mais expostas ou sensíveis e oferecer orientação adequada, além de reconhecer efeitos colaterais e ajustar a prescrição, são atribuições explicitamente listadas para o profissional de saúde. Suspensão preventiva em bloco não é recomendada por nenhuma das fontes — o guia orienta avaliar cada caso individualmente e ajustar a dose se necessário.

MS/OPAS, Guia de bolso 2024

5.2Uma mãe pergunta se deve dar água ao bebê de dois meses, em aleitamento materno exclusivo, durante os dias de calor intenso. Qual orientação está sustentada nas fontes?

  • A Oferecer água livre a cada mamada, obrigatoriamente.
  • B Bebês em aleitamento materno exclusivo e sob demanda não precisam de água adicional, mesmo em condições extremamente quentes e secas.
  • C Substituir metade das mamadas por água durante a onda de calor.
  • D Suspender o aleitamento nos horários mais quentes do dia.
Ver resposta

Resposta correta: B.

O guia afirma explicitamente que bebês amamentados em condições extremamente quentes e secas não precisam de água adicional se o aleitamento for exclusivo e sob demanda. As demais orientações — ambiente fresco, roupas leves, atenção a sinais de desconforto — permanecem válidas, e recém-nascidos têm termorregulação imatura, o que justifica vigilância redobrada.

MS/OPAS, Guia de bolso 2024; Holvoet et al., 2026

Parte VIAvaliação final

Cinco questões integradoras, que exigem articular conteúdo de mais de um módulo.

F1Numa reunião com a gestão municipal, um gestor afirma: "os dados mostram que morreram 217 pessoas por causa do calor naqueles nove dias". Qual reformulação é tecnicamente mais correta?

  • A "Morreram 217 pessoas de intermação naqueles nove dias."
  • B "Estimou-se um excesso de 217 óbitos em relação ao esperado na janela analisada, distribuído por várias causas, sem que se possa atribuir individualmente cada morte ao calor."
  • C "Não houve nenhuma morte relacionada ao calor, pois o código X30 registrou zero óbitos."
  • D "Os 217 óbitos foram todos por causas cardiovasculares."
Ver resposta

Resposta correta: B.

O estudo estimou risco relativo de 1,077 (IC95% 1,039–1,117), correspondente a 217 óbitos em excesso em nove dias, com excesso difuso entre capítulos da CID-10 — circulatório 21%, respiratório 17%, endócrino 17%, causas externas 17%, infecciosas 13%, renal 11% — e nenhum grupo isolado sobrevivendo à correção de Bonferroni. Excesso estimado em nível populacional não é o mesmo que causa de morte individual, e as estimativas são específicas daquele episódio.

Vieira, manuscrito Sul fev/2024

F2Mulher de 76 anos, com insuficiência cardíaca e em uso de furosemida, mora sozinha em apartamento sem ventilação adequada. Está no quarto dia de onda de calor. Qual conjunto de ações é o mais coerente com as fontes?

  • A Suspender a furosemida por tempo indeterminado e orientar ingestão livre de água.
  • B Priorizar visita domiciliar, aferir pressão em pé e deitado, revisar a dose individualmente, orientar hidratação e manejo do ambiente e checar quem pode acompanhá-la.
  • C Encaminhar imediatamente à emergência apenas pela idade e pelo uso de diurético.
  • D Nenhuma ação específica, pois a metanálise não encontrou efeito dos diuréticos sobre a temperatura central.
Ver resposta

Resposta correta: B.

A paciente acumula sensibilidade (idade, doença crônica, círculo social pequeno) e exposição (ausência de ventilação adequada). Ainda que a metanálise não tenha encontrado efeito dos diuréticos sobre a temperatura central, o risco por via indireta — depleção de volume, hipotensão, hiponatremia, hipopotassemia — permanece, e mais de 30% das pessoas cuja saúde foi afetada em ondas de calor na Austrália e na França usavam diuréticos, a maioria com 70 anos ou mais. O guia orienta avaliação individual e ajuste de dose, não suspensão automática.

MS/OPAS, Guia de bolso 2024; Hospers et al., 2024

F3Uma equipe quer justificar à gestão a compra de ventiladores e borrifadores para a sala de observação. Qual argumento técnico é mais sólido?

  • A Bolsas de gelo no tronco são o padrão-ouro e dispensam outros equipamentos.
  • B O tratamento definitivo é o resfriamento corporal total, e a evaporação por borrifação com ventilação é a via mais rápida depois da imersão em água gelada.
  • C O resfriamento deve ser iniciado apenas no hospital de referência.
  • D Ventiladores são contraindicados em pacientes hipertérmicos.
Ver resposta

Resposta correta: B.

O protocolo afirma que o tratamento definitivo da doença relacionada ao calor é o resfriamento corporal total; que, além da imersão em água gelada, a evaporação (borrifação e ventilação) é a via mais rápida; e que as bolsas de gelo são menos eficazes, com preferência por face, palmas e plantas em vez do tronco. A primeira intervenção é retirar o paciente do ambiente quente — portanto, o resfriamento começa onde o paciente está.

Hyperthermia Administrative Guideline

F4Um colega afirma que "onda de calor só é perigosa acima de 40 °C". Quais elementos das fontes contradizem essa afirmação?

  • A Apenas o fato de que a definição varia entre países.
  • B A definição relativa ao esperado para a região e a época; o efeito independente da temperatura noturna; e o aumento de eventos cardiovasculares com umidade acima de 80% mesmo sem temperatura extrema.
  • C Nenhum: 40 °C é o limiar internacionalmente adotado.
  • D Apenas o fato de que idosos são mais sensíveis.
Ver resposta

Resposta correta: B.

A definição do Ministério da Saúde é relativa ao esperado para a região e a época; um estudo multicêntrico precisou de doze definições diferentes e uma revisão de escopo não encontrou limiar padronizado; o SMN argentino exige apenas percentil 90 de máxima e mínima por três dias, com limiares de 22 °C e 32,3 °C em Buenos Aires; a exposição noturna manteve efeito após ajuste para o dia, com RR de 1,65 para AVC; e a umidade acima de 80% associou-se a aumento de atendimentos cardiovasculares mesmo sem temperaturas extremas.

MS, Ondas de Calor; Guo et al., 2017; Graffy et al., 2024; Chesini et al., 2019; Murage et al., 2017; Tulane, 2026

F5Ao planejar a comunicação da unidade para a próxima onda de calor, qual conjunto de grupos deve ser explicitamente priorizado, segundo o guia do Ministério da Saúde?

  • A Apenas pessoas com mais de 80 anos.
  • B Apenas pessoas com doença cardiovascular diagnosticada.
  • C Grupos em situação de risco ou com barreiras de acesso, em especial indígenas, comunidades rurais e remotas e pessoas em situação de rua.
  • D Apenas trabalhadores formais expostos ao sol.
Ver resposta

Resposta correta: C.

Entre as atribuições da vigilância em saúde pública, o guia lista priorizar grupos em situação de risco ou que enfrentam barreiras de acesso — em especial indígenas, comunidades rurais e remotas e pessoas em situação de rua — para informá-los sobre os riscos e as medidas preventivas por meio da mídia de massa. Os demais grupos citados nas alternativas também são vulneráveis, mas nenhum deles esgota a orientação.

MS/OPAS, Guia de bolso 2024

Parte VIIReferências

Todas as referências abaixo constam de um dos três acervos descritos na apresentação. Nenhuma foi acrescentada de fora deles. A procedência está indicada ao final de cada entrada: [N1] notebook Heatwaves and Climate change; [N2] notebook Mudanças Climáticas e Saúde; [A] artigos adicionais fornecidos à parte.

Referências essenciais

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Mudanças climáticas para profissionais da saúde: guia de bolso. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 137 p. ISBN 978-65-5993-649-6. Adaptação de obra original da Organização Pan-Americana da Saúde. (Fonte principal do curso.) [N1]
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Ondas de Calor. Saúde de A a Z, portal gov.br. (Definição, sinais de alerta e orientações à população.) [N1]
  3. World Health Organization. Operational framework for building climate resilient health systems. Genebra: OMS, 2015. ISBN 978 92 4 156507 3. (Os dez componentes; base do Módulo 5 e fonte direta da posição da OMS sobre medicamentos.) [N2]
  4. Chesini F, Abrutzky R, de Titto E. Mortalidad por olas de calor en la ciudad de Buenos Aires, Argentina (2005-2015). Cadernos de Saúde Pública, 2019;35(9):e00165218. (Dados latino-americanos; definição operacional do SMN; efeito colheita.) [N2]
  5. Guo Y, Gasparrini A, Armstrong BG, et al. Heat Wave and Mortality: A Multicountry, Multicommunity Study. Environmental Health Perspectives, 2017. doi:10.1289/EHP1026. [N1]
  6. Hospers L, Dillon GA, McLachlan AJ, et al. The effect of prescription and over-the-counter medications on core temperature in adults during heat stress: a systematic review and meta-analysis. eClinicalMedicine, 2024;77:102886. [N1]
  7. Mohammed SY, Nashwan AJ. Heat Stress and Kidney Injury: A Growing Concern Amidst Climate Change. Kidney Medicine, 2026;8(2):101215. [N1]
  8. Murage P, Hajat S, Kovats RS. Effect of night-time temperatures on cause and age-specific mortality in London. Environmental Epidemiology, 2017;2:e005. [N1]
  9. Holvoet E, Lokubal P, Chersich M, et al. The Impact of Ambient Heat on Perinatal and Neonatal Health in the Context of Climate Change: A Scoping Review. Current Environmental Health Reports, 2026;13:29. [N1]
  10. Hyperthermia Administrative Guideline. Protocolo assistencial. (Ver observação na seção de revisão: a instituição responsável e a data não estão identificadas no material disponível.) [N1]

Duas referências saíram desta lista na revisão com as fontes novas, e passaram a leituras complementares: He et al. (saúde mental) e Graffy et al. (revisão metodológica). Nenhuma das duas perdeu validade — as substituições foram a OMS e Chesini et al., que fecham lacunas declaradas de autoridade normativa e de dados regionais.

Leituras complementares

  1. He WQ, Dey C, Li C, et al. Heat Exposure and Hospital Admissions for Mental Health Disorders in a Changing Climate. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry, 2026. [N1]
  2. Graffy PM, Sunderraj A, Visa MA, et al. Methodological Approaches for Measuring the Association Between Heat Exposure and Health Outcomes. GeoHealth, 2024. doi:10.1029/2024GH001071. [N1]
  3. Vieira FL. Mortalidade por múltiplas causas durante a onda de calor de fevereiro de 2024 no Sul do Brasil: excesso difuso e ausente das estatísticas de causa básica de óbito. Manuscrito. (Dados brasileiros; base do argumento sobre registro e atribuição.) [N1]
  4. Organismo Andino de Salud – Convenio Hipólito Unanue; Organização Pan-Americana da Saúde. Plan andino de salud y cambio climático 2020-2025. Washington, D.C., 2020. ISBN 978-92-75-32309-0. [N2]
  5. Yglesias-Gonzalez M, Palmeiro-Silva Y, Sergeeva M, et al. Code Red for Health response in Latin America and the Caribbean: enhancing peoples' health through climate action. (Indicadores regionais do Lancet Countdown para a ALC.) [N2]
  6. Alcayna T, Fletcher I, Gibb R, et al. Climate-sensitive disease outbreaks in the aftermath of extreme climatic events: a scoping review. One Earth, 2022;5:336–350. doi:10.1016/j.oneear.2022.03.011. [A]
  7. Fletcher IK, Stewart-Ibarra AM, García-Díez M, Shumake-Guillemot J, Lowe R. Climate services for health: from global observations to local interventions. Med, 2021;2:1–7. doi:10.1016/j.medj.2021.03.010. [A]
  8. Lowe R, Stewart-Ibarra AM, Petrova D, et al. Climate services for health: predicting the evolution of the 2016 dengue season in Machala, Ecuador. Lancet Planetary Health, 2017;1:e142–e151. [A]
  9. Hess J, Boodram LLG, Paz S, Stewart Ibarra AM, Wasserheit JN, Lowe R. Strengthening the global response to climate change and infectious disease threats. BMJ. (Usado apenas para a pegada de carbono do setor saúde e para o enquadramento de ação antecipatória.) [A]
  10. Roca Villanueva B, Beltrán Salvador M, Gómez Huelgas R. Cambio climático y salud. Rev Clin Esp, 2019. doi:10.1016/j.rce.2019.01.004. [N2]
  11. Cheng JJ, Berry P. Health co-benefits and risks of public health adaptation strategies to climate change: a review of current literature. Int J Public Health, 2013;58:305–311. [N2]
  12. Ciganda C. Adaptación y mitigación climática — co-beneficios. Sessão 9, curso de clima e saúde para a América Latina, OPAS/OMS, 19 maio 2022. Ministerio de Salud Pública, Uruguai. (Material didático, não fonte primária; usado como estrutura pedagógica.) [N2]
  13. The 2026 Europe report of the Lancet Countdown on health and climate change: narrowing window for decisive health action. [N1]
  14. Moyen NE, Barnes MJ, Perry BG, et al. Nicotine exacerbates exertional heat strain in trained men: a randomized, placebo-controlled, double-blind study. 2024. [N1]
  15. "Non-survivable": heatwaves are already breaching human limits, with worse to come, study finds. The Guardian, 8 abr. 2026. (Reportagem sobre estudo na Nature Communications, liderado por Perkins-Kirkpatrick, com participação de Ollie Jay.) [N1]
  16. New Tulane study finds high humidity intensifies cardiovascular strain. Reportagem universitária. [N1]
  17. Thermal stress and cognitive performance in heat-exposed manual workers: an EEG investigation in a controlled indoor environment. (Experimento com 20 participantes; WBGT de 23 a 31 °C.) [N1]
  18. Instituto Nacional de Meteorologia. El Niño: o que esperar e como o fenômeno pode afetar o Rio Grande do Sul, e figura associada (fig-2-nino.png). (Contexto climático; trata sobretudo de chuva e enchente, não de calor.) [N1]
  19. Nota analítica: "A conclusão do estudo é que a nicotina é um fator de risco, não um fator de proteção." [N1]

Parte VIIIPontos que necessitam revisão do autor

Esta seção lista o que não deve ser publicado sem verificação. Ela é parte do material, não um apêndice.

Fontes conflitantes

Terminologia de "insolação" e "golpe de calor"

O guia de bolso do Ministério da Saúde chama de insolação o quadro de 38,3 a 40 °C sem comprometimento neurológico, e de colapso pelo calor o quadro acima de 40 °C com comprometimento do SNC. O portal do mesmo Ministério usa "insolação e golpe de calor", descrevendo o golpe de calor como a emergência com confusão, convulsões e perda de consciência. Dois documentos do mesmo órgão, dois vocabulários. O curso optou por ensinar pela descrição clínica, mas a decisão editorial final é do autor.

Medicamentos e termorregulação

Divergência já sinalizada no Módulo 3: a orientação da OMS e o guia do Ministério listam classes amplas; a metanálise de Hospers et al. (2024) confirma efeito sobre a temperatura central apenas para anticolinérgicos fortes, betabloqueadores não seletivos, adrenalina e antiparkinsonianos. A conciliação proposta — vias diretas versus vias indiretas — é uma interpretação do curso, não uma afirmação de nenhuma das fontes, e deve ser validada antes da publicação.

Efeito adicional das ondas de calor

Guo et al. (2017) não encontraram efeito adicional das ondas de calor sobre a mortalidade após controle pela temperatura média diária na maioria dos países — com exceção de Brasil, Moldávia e Taiwan, e apenas no percentil 97,5. Isso tensiona a narrativa usual de que "a sequência de dias quentes é o que mata". O curso apresenta o achado, mas o autor deve decidir quanto peso dar a ele diante de um público que receberá mensagens de saúde pública construídas sobre a premissa oposta.

Duração da onda de calor: modifica ou não o risco?

Divergência nova, e relevante para a prática. Guo et al. (2017) encontraram que, para o mesmo limiar, ondas mais longas não tiveram efeito maior sobre a mortalidade que ondas de dois dias. Chesini et al. (2019) encontraram o oposto em Buenos Aires: a onda de nove dias de dezembro de 2013 elevou a mortalidade geral de 14% para 42,8%, atingiu faixas etárias que não mostravam risco nas ondas curtas e produziu efeito renal ausente nas curtas. Os autores argentinos atribuem isso à manutenção da temperatura noturna elevada, que impede a recuperação, ao efeito de ilha de calor e ao fato de o evento ter ocorrido cedo no semestre quente, dificultando a aclimatação. O curso apresenta os dois achados; o autor precisa decidir qual mensagem prevalece na comunicação com a equipe.

Estrutura temporal do efeito: lag zero ou risco pós-evento?

Em Buenos Aires, idosos e causas cardiovasculares e respiratórias atingiram o risco máximo no dia seguinte ao término da onda, com efeito persistindo até quatro dias. No evento brasileiro de fevereiro de 2024, o efeito foi máximo na defasagem zero, com decaimento monotônico. Os desenhos são diferentes (série temporal com modelos aditivos generalizados versus case-crossover com janela pré-especificada pelo INMET), o que pode explicar parte da diferença. A orientação prática do Módulo 1 — não desmobilizar quando o alerta termina — apoia-se no achado argentino e deve ser revista se o autor considerar o dado brasileiro mais aplicável ao contexto local.

Causas externas: incluídas ou excluídas do desfecho?

Chesini et al. excluíram as causas externas por desenho, analisando apenas causas naturais. No estudo brasileiro de fevereiro de 2024, as causas externas representaram 17% do excesso observado. Não é uma contradição de resultados, mas uma diferença de escopo que muda o que cada estudo pode dizer — e que, se não for explicitada, faz os números parecerem comparáveis quando não são. Recomenda-se decidir se o curso trata causas externas como parte do impacto do calor e, em caso afirmativo, dizê-lo com clareza.

Efeito renal: mecanismo robusto, desfecho populacional inconstante

Mohammed & Nashwan (2026) tratam o rim como alvo central do estresse térmico, com até um terço dos internados desenvolvendo lesão renal aguda. Chesini et al. não encontraram aumento significativo de mortalidade renal no conjunto das ondas de calor — testando defasagens de até 15 dias — mas encontraram RR 1,647 na onda longa. O Módulo 2 propõe a leitura de que o rim aparece como desfecho de mortalidade sobretudo em exposições prolongadas; essa reconciliação é interpretação do curso, não afirmação das fontes, e precisa de validação.

Mortalidade perinatal e morte súbita infantil

O guia do Ministério registra explicitamente estudos discordantes: em Quebec, associação entre temperatura elevada e mortalidade perinatal a termo e morte súbita infantil; em Brisbane, Taiwan e Viena, ausência de correlação. A revisão de escopo de Holvoet et al. (2026), por sua vez, aponta associações consistentes. Convém decidir se e como esse desacordo entra no material do aluno.

Recomendações clínicas que precisam de validação adicional

Procedência do protocolo de hipertermia

O documento "Hyperthermia Administrative Guideline" é a fonte de praticamente todo o Módulo 4 — critérios diagnósticos, ordem de eficácia do resfriamento, conduta com glicemia. No notebook, porém, não estão identificadas a instituição responsável, a data nem a jurisdição, e o texto tem características de protocolo pré-hospitalar norte-americano. Antes de publicar, é necessário identificar a fonte e confrontá-la com um protocolo brasileiro vigente.

Metas de hidratação

A recomendação de "no mínimo 2 litros por dia" vem do guia do Ministério da Saúde e é apresentada sem qualificação por peso, função renal ou uso de diuréticos. Para um público clínico, convém verificar se o material deve manter o número como está ou acrescentar ressalva para pacientes com insuficiência cardíaca ou doença renal — nenhuma fonte do notebook oferece essa ressalva.

Critérios de encaminhamento

A lista do Módulo 4 é uma síntese feita pelo curso a partir de três fontes distintas. Cada critério isolado tem respaldo, mas a lista como conjunto não aparece dessa forma em nenhum documento. Recomenda-se validação por um segundo revisor clínico antes da publicação.

Números que variam conforme local e ano

Dados que envelhecem

As 62.000 mortes atribuíveis ao calor na Europa referem-se especificamente a 2024, e os percentuais de aumento de alertas comparam 2015–2024 com 1991–2000 Lancet Countdown Europa, 2026. O RR de 1,077 e os 217 óbitos em excesso são específicos do evento de 7 a 15 de fevereiro de 2024 em Paraná, Rio Grande do Sul e Roraima — o próprio manuscrito afirma que as estimativas são específicas daquele episódio. O aumento de 1,6% em internação por infarto por 1 °C e o de 7% em internações por saúde mental vêm de estudos citados dentro do guia, cada um com sua população e período. Todos devem ser datados no material do aluno, e não apresentados como constantes.

Tópicos do escopo com sustentação insuficiente nas fontes

Diabetes

Aparece como condição crônica de risco em duas fontes — o portal do Ministério cita diabéticos entre os mais vulneráveis, e Mohammed & Nashwan citam diabetes e hipertensão entre as condições que aumentam a suscetibilidade —, mas nenhuma fonte do notebook traz mecanismo, magnitude de efeito ou recomendação específica. O curso não desenvolveu o tópico. Se ele for considerado essencial, será preciso acrescentar fonte.

Obesidade

Situação análoga: o guia cita "pouco condicionamento físico ou sobrepeso" como fator de sensibilidade, com a justificativa de que "o coração não está em forma suficiente para lidar com o estresse", e o artigo renal menciona obesidade entre fatores contribuintes indiretos. Não há dados quantitativos nem recomendação clínica própria nas fontes disponíveis.

Índice de calor e sensação térmica operacionais

As fontes estabelecem que a umidade importa e, num caso, mencionam o limiar de 80% de umidade relativa e o conceito de temperatura de bulbo úmido de 35 °C como limite teórico de sobrevivência. Mas nenhuma fonte fornece um índice de sensação térmica operacional para uso na APS brasileira, com faixas e condutas associadas. O curso não pode oferecer essa tabela sem inventá-la.

Critério operacional brasileiro de onda de calor

Parcialmente resolvido. O curso agora dispõe de quatro definições operacionais explícitas, incluindo a do Serviço Meteorológico Nacional argentino, que é de uma autoridade meteorológica latino-americana e serve de referência regional. Permanece, porém, a lacuna específica: o manuscrito é explícito ao afirmar que a nota técnica do INMET estabelece o período e nomeia os estados afetados, mas não formaliza o critério operacional que gerou a janela brasileira. O curso pode ensinar "siga o INMET" e mostrar como os vizinhos definem, mas não pode ensinar como o INMET decide.

Calor e doenças infecciosas: base fina e efeitos em direções opostas

O bloco do Módulo 1 foi escrito para conter, não para afirmar. Apenas 5 dos 90 eventos identificados na revisão de escopo envolviam ondas de calor, e para dengue os achados apontam em direções opostas conforme a duração e a temperatura atingida. Convém decidir se o piloto mantém esse bloco — ele responde a uma pergunta previsível, mas introduz complexidade num curso introdutório — e, se mantiver, garantir que a mensagem retida seja a contenção, e não uma associação.

Três das quatro fontes adicionais tratam de doença infecciosa, não de calor

Alcayna et al., Lowe et al. e Hess et al. têm como objeto doenças sensíveis ao clima, sobretudo dengue e cólera. Foram usadas por analogia metodológica — como se desenham gatilhos de alerta, o que é um serviço climático, qual a pegada de carbono do setor — e não como evidência sobre calor e saúde, exceto no recorte específico de ondas de calor da revisão de Alcayna et al. Essa distinção está explicitada no texto, mas o autor deve confirmar que ela sobrevive à edição final. O exemplo de Machala, em particular, é ilustração de método com desfecho que não é calor.

Comunicação de risco: método

As fontes sustentam o que comunicar e a quem priorizar, mas não trazem evidência sobre como comunicar — eficácia comparada de canais, linguagem ou frequência de mensagens durante alertas. Todo o Módulo 5 na parte de comunicação foi construído sobre atribuições descritas, e não sobre eficácia demonstrada.

Lacunas importantes no material disponível

Vieses da base de evidências

Quatro limitações estruturais atravessam o curso e devem ser ditas ao aluno: (i) a base experimental sobre medicamentos é de homens jovens saudáveis, com 4,5% de mulheres e um único estudo em população clínica Hospers et al., 2024; (ii) a pesquisa sobre calor e saúde concentra-se em poucos países — China, Estados Unidos e Austrália —, com África e Oceania sub-representadas Graffy et al., 2024; (iii) os mecanismos biológicos ligando calor a desfechos perinatais permanecem mal compreendidos, e as janelas críticas de exposição não estão conclusivamente definidas Holvoet et al., 2026; (iv) a sub-representação de certas geografias é apontada como lacuna de conhecimento especificamente na pesquisa sobre ondas de calor, e os autores registram não ser evidente por que há tão poucos estudos sobre calor, já que as definições disponíveis são robustas Alcayna et al., 2022.

Hierarquia de fontes: OMS e OPAS resolvidas, Fiocruz pendente

Em grande parte resolvido. A hierarquia solicitada privilegia OMS, OPAS, Ministério da Saúde e Fiocruz. O curso agora cita a OMS diretamente (marco operacional de 2015), o que é especialmente importante porque permite ler no original a afirmação sobre medicamentos que a metanálise de Hospers et al. contesta — antes, essa posição chegava apenas pela descrição de quem a criticava. A OPAS aparece agora em documento próprio (Plan andino 2020), além da via indireta do guia de bolso. Permanece a ausência de qualquer documento da Fiocruz, que a hierarquia solicitada coloca em quarto lugar.

Duas ressalvas sobre a fonte da OMS: ela é de 2015, anterior à metanálise de 2024, e a afirmação sobre medicamentos aparece de passagem, dentro do componente de infraestrutura e tecnologias, sem referência de apoio no ponto. Convém verificar se há posição mais recente da OMS antes de apresentar a divergência como atual.

Escolha do produto de dados climáticos

Não há consenso sobre qual produto de dados climáticos é apropriado para modelagem de impacto em saúde, e os produtos globais em grade carregam vieses sistemáticos em relação ao clima local. Isso significa que parte da divergência entre estudos sobre o mesmo tipo de evento pode vir do dado de entrada, e não do fenômeno. O Módulo 1 menciona o ponto de forma breve, deliberadamente: aprofundá-lo exigiria um público com formação em métodos que este piloto não pressupõe. O autor deve decidir se o parágrafo permanece nesta profundidade.

Fontes de peso desigual usadas lado a lado

O material combina documento normativo da OMS, guia oficial do Ministério da Saúde, plano regional da OPAS, revisões sistemáticas e de escopo, estudos primários, um manuscrito ainda não publicado, um protocolo assistencial não identificado, um slide de curso, duas reportagens e uma nota analítica. As reportagens (Guardian e Tulane) são usadas para afirmações relevantes — limites de sobrevivência e efeito da umidade — sem que os artigos originais estejam disponíveis; recomenda-se substituí-las pelos primários antes da publicação. O material da sessão 9 do curso OPAS/OMS é usado apenas como estrutura pedagógica (níveis de prevenção), nunca como evidência, e está assim identificado — mas convém confirmar que essa distinção permanece legível para o aluno.

Fonte de relevância marginal

O material do INMET sobre El Niño e a figura associada tratam de chuva e enchente no Rio Grande do Sul, não de ondas de calor. Foram mantidos apenas como contexto climático nas leituras complementares e não sustentam nenhuma afirmação do curso.

Uso do manuscrito do próprio autor

O manuscrito sobre a onda de calor de fevereiro de 2024 é a única fonte brasileira com dados primários de mortalidade no notebook e sustenta o argumento central do Módulo 1. Como ainda não está publicado, convém decidir se o curso aguarda a publicação, cita-o como manuscrito com essa ressalva explícita, ou substitui o argumento por fonte já revisada por pares.